O governo italiano decidiu colocar a fiducia na Câmara sobre o Decreto Ucrânia. A medida, anunciada com firmeza, foi justificada pelo ministro da Defesa como um instrumento para esclarecer posições internas da coalizão e não como uma “fuga” diante das críticas. Na prática, porém, a escolha de recorrer à fiducia acendeu tensões no centrodestra e colocou em evidência as fraturas abertas pela saída de Vannacci da Lega.
Em discurso na tribuna, o ministro Crosetto assumiu a responsabilidade política do ato: disse que pedir a fiducia é um modo de obrigar os componentes da maggioranza a declarar se continuam a apoiar o governo num tema considerado de alta relevância internacional. “Não é um modo de escapar”, afirmou, comparando o gesto a um esforço para deixar claros os alicerces da coalizão — como se a votação fosse uma verificação do peso da caneta sobre a arquitetura da maioria.
Para o centro-esquerda, contudo, a escolha revela outra interpretação: a fiducia serviria a evitar que a Lega se partisse durante a análise dos emendamenti, gerando uma inédita convergência entre Vannacciani, Movimento 5 Stelle, AVS e parcelas mais duras da própria Lega contrárias ao envio de ajuda militar a Kiev.
Fontes no centro-direita relatam que a pressão para esta direção teria partido, sobretudo, de Salvini, ainda que a leitura dos fatos mude conforme o ponto de observação: para o governo, a tática obriga os dissidentes a escolher se permanecem no bloco ou se se afastam; para as oposições, é a maneira mais segura de travar eventuais maiorias transversais emendas que possam alterar o alcance do decreto.
Os seguidores do ex-general Vannacci mantêm a dúvida aberta. Por ora, não anunciam como votarão sobre a fiducia — “Ci penseremo nelle prossime ore”, repetem, deixando a porta entreaberta para permanecerem no centrodestra. O ex-FdI Emanuele Pozzolo sublinha que não houve, até agora, posição contrária clara de Vannacci em relação ao alinhamento com o bloco: ele descreve a reação como resposta ao nervosismo do centro-direita diante das propostas de Futuro Nazionale.
As críticas em plenário não tardaram. O ex-colega ed membro da corrente vannacciana, Edoardo Ziello, atacou duramente Salvini, apontando as contradições que, segundo ele, comprimem o líder leghista e revelam fragilidades internas. A cena desenha um Parlamento mais parecido com um canteiro em obra: peças políticas que precisam ser encaixadas ou removidas para que a construção da maioria permaneça de pé.
Na prática, a fiducia é apresentada pelo governo como um instrumento para reforçar a clareza política e encerrrar especulações sobre a solidez do executivo — mas também deixa expostas as fissuras do bloco governista. Resta saber se, depois do voto, os alicerces estarão mais firmes ou se a votação apenas evidenciará novas fraturas na arquitetura do poder.





















