O programa de Milano Cortina 2026 reserva aos espectadores paisagens e imagens que dizem muito sobre a contemporaneidade do esqui: velocidade, risco calculado, estética do gesto e inserção urbana do espetáculo. Entre as modalidades que mais representam essa face do esporte está o freestyle, o esqui acrobático que, desde suas origens, encarna uma confluência de cultura jovem, experimentação técnica e profissionalização olímpica.
Originado nos anos 1960 sob o rótulo de “hotdogging“, o freestyle surgiu como uma prática de rua aplicada às encostas — uma mistura de improviso, estilo e acrobacia. Sua entrada gradual no circuito formal culminou com aparições demonstrativas em Calgary 1988 e, ao longo das décadas seguintes, com a incorporação de provas ao programa olímpico: os moguls passaram a valer medalhas em Albertville (1992), os aerials em Lillehammer (1994), o skicross em Vancouver (2010) e, em ciclos mais recentes, o slopestyle, o halfpipe, o big air e o mixed team aerials. Para 2026, a novidade será a entrada do dual moguls, prova que transforma a técnica em confronto direto.
As provas de freestyle de Milano Cortina 2026 serão disputadas em Livigno, nos parques de Mottolino e Carosello 3000, espaços que combinam infraestrutura para grandes eventos e um repertório de relevo propício a manobras espetaculares. Em linhas gerais, as competições seguem formato de qualificatórias e finais, mas cada disciplina traz critérios e lógicas próprias:
- Moguls: o atleta desce por um trajeto retilíneo repleto de ondulações — os “moguls” — intercalando curvas técnicas, saltos e velocidade. A nota resulta da combinação entre técnica de condução, complexidade e execução dos saltos e tempo.
- Dual moguls: novidade olímpica, transforma a corrida em um duelo direto: dois esquiadores alinham-se lado a lado e, além de técnica e salto, pesa a dinâmica competitiva do embate pelo primeiro lugar na pista.
- Aerials: os competidores saltam de rampas projetadas para impulsionar manobras com rotações e avitamentos, aterrissando em declives íngremes. A avaliação considera impulsão, execução corporal e aterrissagem.
- Skicross: mescla velocidade e estratégia tática. Após uma qualificação cronometrada, fases eliminatórias reúnem quatro atletas em pista com saltos, mesas e curvas; vence quem cruza a linha em primeiro.
- Slopestyle e Halfpipe: provas que privilegiam criatividade e amplitude. No slopestyle, o percurso é uma sequência de obstáculos (rails, mesas e rampas) avaliada por originalidade, dificuldade e fluidez; no halfpipe, o foco é a altura alcançada nas paredes e a complexidade técnica das rotações.
- Big air: concentração máxima em um único impacto estético — uma rampa, um salto para realizar a manobra mais difícil possível; a performance é julgada pela dificuldade e pela perfeição do gesto em suspensão e aterrissagem.
O interesse pelo freestyle nas últimas décadas tem duas faces: uma espetacular — capturada por imagens que viralizam — e outra institucional, revelada na profissionalização de federações, circuitos e centros de formação. As arenas de Livigno não serão apenas palcos de acrobacias; serão laboratórios de transmissão de saberes técnicos e de economia desportiva local, com impacto turístico e simbólico nas comunidades alpinas.
Olhar o freestyle como fenômeno requer, portanto, deslocar a atenção do ato isolado da manobra para as redes que o sustentam: treinadores, infraestrutura, patrocínios, mídia e memória coletiva. Em 2026, quando os atletas alinharem-se para saltos, duelos e descidas, o que estará em jogo será mais do que medalhas — será também a forma como o esporte contemporâneo negocia risco, espetáculo e identidade regional numa Itália que redescobre os Alpes como palco global.
Em termos práticos, para o público que busca compreender as diferenças entre as provas, vale lembrar as palavras-chave que ajudam a orientar a observação: moguls é técnica sob vibração; dual moguls é confronto; aerials é voo e precisão; skicross é corrida com contato; slopestyle, halfpipe e big air são, cada uma à sua maneira, ensaios sobre criatividade, risco e estética do movimento.
Milano Cortina 2026 promete, portanto, cartões-postais e narrativas que extrapolam a arena: não apenas imagens de atletas no ar, mas índices de transformação social e cultural de territórios que se reencontram na esportividade moderna.






















