Arianna Fontana consolidou-se hoje como uma referência histórica do esporte italiano e do short track mundial. Ao conquistar o ouro na prova de revezamento misto em Milano-Cortina 2026, a patinadora chegou a 12 medalhas olímpicas e registrou um marco raro: medalar em seis Olimpíadas consecutivas, igualando um recorde que até então pertencia a Armin Zöggeler.
O triunfo na prova por equipes, ao lado de Elisa Confortola, Thomas Nadalini e Pietro Sighel, representa mais do que mais uma medalha no currículo de Fontana. É a confirmação de uma carreira pautada por longevidade, adaptação e pela capacidade de actualizar-se num esporte de altíssima intensidade física e estratégica.
O percurso olímpico de Arianna Fontana tem contornos de fábula e de memória coletiva. Sua primeira medalha de cinco anéis veio ainda adolescente: com apenas 15 anos, em Turim 2006, integrou o pódio do revezamento feminino (bronze). Em Vancouver 2010 voltou ao pódio com o bronze nos 500 metros. Em Sochi 2014 ampliou seu leque com a prata nos 500 metros e dois bronzes — nos 1500 metros e no revezamento.
Em PyeongChang 2018, Fontana alcançou o auge individual ao conquistar o ouro nos 500 metros, somando ainda um bronze nos 1000 metros e a prata no revezamento. A trajetória seguiu em Pequim 2022, onde repetiu o ouro nos 500 metros e conquistou duas pratas, nos 1500 metros e no revezamento misto — prova que, hoje, voltou a lhe sorri.
Com as novas conquistas em Milano-Cortina 2026, Arianna Fontana chega a 12 medalhas olímpicas, ficando a uma apenas do recorde absoluto do esporte italiano — as 13 medalhas do esgrimista Edoardo Mangiarotti. Esse dado, por si só, sublinha a singularidade de sua carreira: não se trata apenas de títulos, mas de uma presença contínua em alto nível ao longo de seis ciclos olímpicos.
Como analista atento à história e ao tecido social do esporte, vejo nessa série de pódios algo além do feito pessoal. Fontana encarna a capacidade do esporte italiano de formar e renovar talentos, mas também revela tensões: a preservação de estruturas de base, o papel das mulheres no esporte de elite e a maneira como narrativas regionais (ela é a “Freccia di Berbenno”) se convertem em símbolos nacionais durante eventos globais.
O ouro do revezamento misto desta edição é um gesto coletivo e simbólico. Reúne gerações distintas, conjuga experiência e juventude e reafirma o short track como disciplina onde estratégia, técnica e coragem se misturam. Para a cidade de Berbenno e para os fãs italianos, a trajetória de Arianna Fontana já é patrimônio — um fio contínuo que liga Turim 2006 a Milano-Cortina 2026 e conta, com clareza, parte da história esportiva recente da Itália.
O próximo capítulo da carreira de Fontana será observado com interesse por quem acompanha a evolução do esporte: há ainda espaço para ultrapassar o recorde de Edoardo Mangiarotti e para ampliar a discussão sobre longevidade atlética, políticas de apoio e memória esportiva. Hoje, porém, cabe reconhecer a dimensão pública e histórica do seu feito: uma atleta que faz do gelo uma plataforma de narrativa social e cultural.





















