Assinada por uma voz que lê o presente no reflexo do passado, a nova exposição no Palazzo Reale de Palermo propõe um encontro íntimo entre luz e memória: Tesori Impressionisti: Monet e la Normandia. A mostra, apresentada pela Fondazione Federico II com o patrocínio do Ministério da Cultura, da Embaixada da França na Itália e do Institut Français, abre ao público em 11 de fevereiro e fica em cartaz até 28 de setembro — uma ocasião que, segundo os organizadores, marca simbolicamente o centenário da morte de Claude Monet.
É preciso voltar a abril de 1874 para entender o espírito desta curadoria: naquele ano, 31 artistas — excluídos das salas acadêmicas tradicionais — organizaram uma exposição que mudou o roteiro das artes visuais. Hoje, a proposta em Palermo recria esse impulso fundacional do Impressionismo, mostrando como uma região, a Normandia, se tornou espelho e musa para pintores que reinventaram a percepção do mundo.
Composta por 97 obras provenientes da Coleção Peindre en Normandie — inédita na Sicília —, do MuMa de Le Havre e de colecionadores privados, a exposição reúne telas que revelam a potência estética e a geografia emocional dessa costa: praias, campos, portos e pensões onde os artistas trocavam ideias e técnicas. Nas Salas Duca di Montalto, as obras de 45 artistas compõem um diálogo histórico e sensorial: nomes como Monet, Eugène Boudin, Bonnard, Dufy, Théodore Géricault, Jean-Baptiste Camille Corot, Adolphe-Félix Cals — muitas vezes apontado como precursor do movimento — Gustave Courbet, Eugène Delacroix, Jacques Villon, Pierre-Auguste Renoir e Berthe Morisot, única mulher representada, formam a constelação em exibição.
A curadoria é assinada por Alain Tapié, conservador-chefe honorário dos museus da França e diretor da Coleção Peindre en Normandie, com Antonella Razete (diretora geral interina da Fondazione Federico II) e o co-curador e project manager Gabriele Accornero. A mostra também abre um capítulo comemorativo: a Fondazione Federico II celebra trinta anos, e Tesori Impressionisti inaugura um ano de eventos que cruzarão história, memória e experimentações formais.
Organizada em cinco seções, a exposição mapeia vetores essenciais do movimento: a formação do grupo, as técnicas ao ar livre, a representação da Normandia e da natureza, o papel social dos artistas e a sua influência nas linguagens contemporâneas. Destaque para a seção dedicada à Fattoria Saint-Siméon — espaço de confronto e convivência artística na costa — e para núcleos que exploram a relação com o mar (In riva al mare), trazendo ao visitante a sensação de que cada pintura é um pequeno set cinematográfico onde a luz encena o roteiro oculto da paisagem.
Como analista cultural, vejo nesta mostra mais do que uma reunião de belas superfícies: é um estudo sobre como territórios se transformam em memória coletiva e em imagens universais. O trabalho de Monet e seus contemporâneos funciona como uma semiótica do clima — em que a luz é personagem e a tela é espelho do nosso tempo. Os visitantes são convidados a ler essas telas como arquivos de afeto e técnica, onde a história regional da Normandia se converte num legado estético que atravessa fronteiras.
Informações práticas: Tesori Impressionisti: Monet e la Normandia estará acessível ao público de 11/02 a 28/09 nas Salas Duca di Montalto do Palazzo Reale de Palermo. Uma oportunidade rara para contemplar 97 obras que articulam a invenção do Impressionismo e a permanência de uma paisagem que moldou a modernidade pictórica.






















