Em uma jornada que ficará marcada na memória coletiva do esporte italiano, Milano‑Cortina 2026 entregou à Itália um desempenho sem precedentes: seis medalhas em um único dia. Nunca antes, nos anais dos Jogos Olímpicos de Inverno, a delegação italiana havia reunido tamanho triunfo em 24 horas. A marca não é apenas esportiva; é também um sintoma de como estruturas, formação e investimento convergiram para transformar potencial em resultado.
O pódio que consolidou o recorde veio com a prata na revezamento misto do biathlon, assinado por Tommaso Giacomel, Lukas Hofer, Dorothea Wierer e Lisa Vittozzi. A França, com Perrot, Fillon Maillet, Jeanmommot e Simon, dominou a prova em 1h04’15″5; a Itália ficou a 25 segundos. No polígono, Vittozzi finalizou a disputa e a equipe italiana teve duas falhas de tiro com Giacomel e Hofer, e uma com Wierer — detalhes que, em uma modalidade tão técnica, definem margens.
O bronze do biathlon ficou com a Alemanha (Strelow, Nawrath, Voigt e Preuss), mas o que importa aqui é o lugar da prata no cenário maior: mais do que uma medalha, um indicador da profundidade do contingente italiano em provas de resistência e precisão, tradições que se renovam nas vilas alpinas e nos clubes de base.
No pattinaggio di velocità, o surpreendente Riccardo Lorello conquistou o bronze nos 5.000 m. Saindo da terceira bateria e promovendo uma escalada consistente contra adversários de alto quilate, Lorello sustentou sua prova até o fim, resistindo a favoritos como Bloemen e Loubineaud. O ouro coube ao norueguês Sander Eitrem, com tempo de 6:03.95 (recorde olímpico), o prata ao tcheco Metoděj Jílek (+2.53) e Lorello fechou em +5.27. Davide Ghiotto terminou em quarto (+5.62) e Michele Malfatti em 12º (+14.00). Resultado que revela um surto de competitividade na patinação longa italiana — fruto, também, de programas de desenvolvimento que ganharam tração na última década.
No trenó, Dominik Fischnaller subiu ao pódio com o bronze no luge. O carabiniere de Bressanone completou a soma das quatro descidas em 3’32″125, a apenas 0″934 do campeão, o alemão Max Langenhan (3’31″191); o austríaco Jonas Müller faturou a prata (3’31″787). Para Fischnaller, é a segunda medalha olímpica, repetindo o bronze de Pequim 2022 — uma carreira que confirma a longevidade e a especialização técnica tipicamente italianas nas pistas de gelo.
O fechamento emocional do dia veio no pattinaggio di figura, no Team Event, onde a Itália assegurou outro bronze. Desde as qualificações, a equipe se manteve na zona de pódio. O segundo lugar na dança, assinado por Charlène Guignard e Marco Fabbri, construiu margem sobre concorrentes como Geórgia e Japão. Nas apresentações finais, as duplas e os singles — entre eles Lara Naki Gutmann, Daniel Grassl e Marco Rizzo — defenderam a colocação com programas que combinaram técnica e expressão. Especialmente notável foi o livre de Grassl, que ajudou a blindar o terceiro lugar.
Com essas conquistas do dia somam-se nove pódios para a Itália em apenas dois dias de competições: além das seis medalhas descritas, já haviam sido conquistados o ouro de Francesca Lollobrigida (pattinaggio di velocità), a prata de Henrik Franzoni (sci alpino) e o bronze de Dominik Paris (sci alpino). Ainda nesta rodada, bronzes chegaram em esqui alpino com Sofia Goggia e no snowboard com Lucia Dalmasso.
Mais que números, trata‑se de um retrato: regiões, clubes e instituições esportivas italianas combinando tradição e modernidade, revelando atletas que são, ao mesmo tempo, produtos de longa cultura técnica e protagonistas de uma nova narrativa nacional. Milano‑Cortina está oferecendo ao país não apenas medalhas, mas símbolos — e, em cada um deles, a capacidade de traduzir disciplina e história em visibilidade global.





















