Instituições, cinema e imprensa: um fio invisível conectou esses três universos na sede da Fundação Marisa Bellisario, onde três mulheres — Daria Perrotta, Claudia Gerini e Rita Lofano — voltaram a se encontrar para uma mesa-redonda promovida e moderada pela fundadora e presidente Lella Golfo. O encontro marcou a abertura do ano social da Fundação Bellisario, reafirmando a vocação do prêmio Marisa Bellisario em destacar trajetórias femininas que reescrevem, com coragem, os roteiros do poder.
O prêmio, já consolidado como reconhecimento a mulheres que se destacam nas profissões, na vida cultural, política e social, traz consigo um compromisso público: quem o recebe deve promover os valores que o inspiram e defender os direitos das mulheres rumo a uma paridade de gênero que não se reduza a uma definição vazia.
“É o primeiro compromisso do ano social”, explicou Lella Golfo, lembrando que a iniciativa visa compreender os caminhos percorridos por mulheres para alcançar metas profissionais e servir de referência para outras na construção de suas carreiras e na afirmação de condições de iguais oportunidades. A noite, em um salão cheio, desenrolou-se como um longo relato de experiências — dificuldades, sucessos e fracassos que não se limitam ao âmbito profissional.
Em tom íntimo, Daria Perrotta, que atua há anos nos bastidores da elaboração da lei orçamentária como ragioniera generale dello Stato, confessou a sensação permanente de precisar provar algo a cada dia: “Todos os dias eu chegava ao escritório com a ideia de ter de demonstrar sempre alguma coisa”, disse, apontando a diferença em relação a colegas homens, que, segundo ela, não enfrentam a mesma apreensão. Uma observação que traduz a pressão sobre as gerações mais novas de mulheres — mais determinadas, mais empenhadas em apagar, na percepção alheia, que são mulheres.
Da experiência internacional trazida por Rita Lofano, hoje à frente de uma importante agência de notícias, emergiu um ponto de tensão entre tecnologia e humanidade. Lofano lembrou que a informação vive um momento difícil, pressionada tanto pelas dinâmicas sociais quanto pela emergência da inteligência artificial. “O modo de buscar, elaborar e difundir as notícias mudou, mas a inteligência artificial nunca poderá substituir a inteligência emocional”, afirmou. Para ela, a empatia e a sensibilidade continuam sendo ferramentas essenciais para contextualizar e filtrar notícias à luz de motivações éticas.
Houve ainda espaço para ironia e leveza. A atriz Claudia Gerini sublinhou, com um sorriso, como a linguagem denuncia estereótipos: “Ouço frequentemente a expressão ‘diretora mulher’ — enquanto nunca se diz ‘diretor homem’. Quando deixarem de dizer ‘diretora mulher’, teremos alcançado um resultado”. A frase funciona como pequeno espelho do nosso tempo: uma linguagem que ainda carrega o roteiro implícito de distinções desnecessárias.
Na sua forma e conteúdo, a mesa-redonda da Fundação Bellisario foi mais do que um relato de carreiras; foi um reframe cultural. Ao reunir vozes de Estado, mídia e artes, o encontro revelou o entrelaçamento entre responsabilidade pública, narrativa e memória — o roteiro oculto que molda possibilidades e expectativas. Como observadora do zeitgeist, não posso deixar de ver nesse tipo de diálogo o potencial de transformação: pequenas reparações simbólicas que, somadas, redesenham o cenário de oportunidades.
Num clima que mesclou testemunho, análise e humor, a noite reafirmou que a luta pela paridade de gênero passa tanto por políticas concretas quanto por uma mudança de percepção — a substituição de antigos rótulos por novos olhares. E, como todo bom filme, a cena exige que continuemos atentos ao que fica fora do quadro, ao roteiro que ainda precisa ser escrito.






















