Em um movimento que se assemelha a um lance decisivo no tabuleiro geopolítico, o show do intervalo do Super Bowl tornou-se, mais uma vez, palco de uma tectônica de poder cultural. No estádio de Santa Clara, Califórnia, onde os Seattle Seahawks derrotaram os New England Patriots por 29-13, quem monopolizou os holofotes foi o porto-riquenho Bad Bunny (Benito Antonio Martínez Ocasio), transformando entretenimento em declaração pública.
Em um país marcado por profundas fraturas, intensificadas pela era Trump, o espetáculo virou objeto de disputa política. O ex-presidente declarou guerra cultural ao artista, criticando-o por cantar majoritariamente em espanhol e por temas que sua base classificou como “woke”, envolvendo imigrantes e pautas de gênero. Havia pedidos de boicote desde setores do movimento Make America Great Again. Ainda assim, para muitos analistas, o que se viu foi possivelmente o momento mais americano da história do evento: um mosaico que falou a cerca de 500 milhões de pessoas, do Canadá ao Peru.
Bad Bunny não apenas cantou todas as letras em espanhol, como construiu um cenário simbólico: campos de cana-de-açúcar erigidos sobre o gramado, ruas caóticas ao estilo nova-iorquino com suas bodegas, vendedores de especiarias e cafés — imagens que remetem tanto às origens humildes quanto à cartografia cultural das Américas. A arquitetura do palco foi, por assim dizer, um mapa narrativo: camadas de memória trabalhadora e presença urbana.
O espetáculo trouxe surpresas que desmontaram narrativas simplistas. Lady Gaga apareceu de surpresa, cantando em inglês e dançando salsa; Ricky Martin contribuiu para iluminar a noite. Uma cerimônia real de casamento ocorreu no campo, reforçando o caráter ritualístico da ocasião. Em um gesto carregado de simbolismo, Bad Bunny entregou seu Grammy — conquistado dias antes como Álbum do Ano — a uma criança hispânica, momento que funcionou como aviso: o palco global também é lugar para quem vive à margem.
Encerrando a sequência, o artista ergueu a voz para dizer “God bless America” e começou a pronunciar, um a um, os países do continente: Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Peru, Equador, Brasil, Colômbia, Venezuela, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, El Salvador, Guatemala, México, Cuba, República Dominicana, Jamaica, Estados Unidos, Canadá. As bandeiras foram trazidas ao campo, multiplicando a imagem de uma América plural — um redobramento de fronteiras simbólicas que redesenha, de forma não violenta, linhas de influência e pertencimento.
Com a voz embargada, falou também da sua origem: “Mi patria, Puerto Rico. Seguimos aquí.” Palavras curtas, de alto valor estratégico. A reação política foi imediata: no espaço da comunicação direta, o ex-presidente qualificou o espetáculo como “repugnante” e “um tapa na cara da América”. Parte do país concordou; outra vasta parcela celebrou a inclusão e a representação. Aqui, como em um jogo de xadrez, cada movimento cultural tem repercussões nas aberturas políticas.
Mais do que um show, foi um manifesto social sob a pele de um grande entretenimento. Bad Bunny ocupou, por algumas horas, a praça pública mais visível do planeta e converteu-a em uma cartografia de identidades e alianças — um lembrete de que os alicerces da diplomacia cultural podem ser tanto frágeis quanto decisivos. A noite em Santa Clara não apagou divisões, mas mostrou que a disputa por narrativas atravessa agora palcos, gramados e timelines.






















