Na La volta buona, programa apresentado por Caterina Balivo, a cantora e personalidade italiana Iva Zanicchi abriu uma janela íntima sobre uma ferida que permanece aberta: a perda do irmão Antonio, vítima da Covid em 2020. Em uma conversa que misturou memória e afetos, Iva transformou o estúdio em um pequeno palco de luto e carinho — como se revisitasse, no espelho do nosso tempo, um roteiro pessoal que também conta a história coletiva daqueles anos.
Segundo a artista, Antonio era o mais jovem da família e, ao mesmo tempo, «il vero artista di casa»: tocava qualquer instrumento sem ter estudado formalmente, escrevia poesias, cantava e pintava. Essa multiplicidade de dons, para Iva, não era apenas talento: era um modo de habitar o mundo, uma semiótica do afeto que atravessava a casa e a memória familiar.
Entre as lembranças reveladas, Iva contou que viveu o irmão como um filho — uma responsabilidade afetiva que a mãe lhe confiou: “La mamma lo aveva affidato a me. Badavo sempre a lui. È sempre stato un amore troppo grande per me”. Essa relação de cuidado, segundo a cantora, aprofundou o sentido da perda quando a doença levou Antonio.
O contexto foi o conhecido drama coletivo: Iva, a irmã e Antonio contraíram a Covid. Enquanto ela e a irmã puderam voltar para casa poucos dias depois, Antonio, que já era cardiopata, permaneceu com febre. Algum tempo depois, ele telefonou para Iva com uma declaração que arranhou o núcleo da cantora: “Iva io sono arrivato alla fine, ho chiamato te perché tu sei come una mamma per me”. Naquela mesma noite, ele faleceu.
Para Iva, a morte do irmão é comparável apenas ao luto por seu companheiro, Fausto Pinna: “È stato il dolore più duro e crudo della mia vita”. A forma como ela narra o episódio revela a intensidade de um sentimento que não cabe em rótulos; é um eco cultural que atravessa a biografia e a coletividade, lembrando que os afetos foram um dos alicerces mais testados durante a pandemia.
Ao encerrar sua lembrança, Iva deixou um adeus simples e eterno: “Ciao Antonio, ti voglio bene per sempre” — uma frase que, traduzida em gesto, é a prova de que a memória é também uma prática de resistência. Como observadora do nosso tempo, penso que esse depoimento não é apenas a confissão íntima de uma artista, mas um pequeno filme sobre como o luto, a arte e a família se cruzam no roteiro oculto da vida.
Em tempos em que a cultura popular frequentemente celebra o efêmero, o relato de Iva Zanicchi nos lembra do contrário: que há feridas que moldam uma identidade, que a memória é um ato estético e político, e que a perda pode ser, paradoxalmente, uma forma contínua de presença.






















