Por Chiara Lombardi — Ao revisitar episódios que continuam a ecoar no nosso imaginário coletivo, percebemos que a história não é apenas um inventário de datas, mas um espelho do nosso tempo. É assim que se apresenta a investigação jornalística em torno da tragédia do Monte Ginér, ocorrida em 22 de dezembro de 1956, quando um voo das Linee Aeree Italiane — o I-Link 416 — despencou sobre a Val di Sole, deixando um rastro de 21 mortos e inúmeros enigmas.
O trabalho de reconstrução deste episódio coube, nas últimas décadas, ao jornalista e escritor Roberto Rinaldi. Ele não se contenta com a cronologia oficial: busca, como um roteirista obcecado por lacunas, os motivos ocultos que explicariam por que aquele avião antigo, um Dakota DC3, desviou-se em 150 quilômetros da rota prevista e culminou na colisão a aproximadamente 2.600 metros, na zona conhecida como Cima Pale Perse — termo que, em sua ironia trágica, significa “vasto campo de frana sperduto in lontananza”.
As perguntas que Rinaldi tenta decodificar soam como cenas que faltaram no roteiro oficial: por que o comandante mudou a rota? Por que a bússola estava avariada, apesar de horas antes o aparelho ter sido supervisionado? O que motivou três figuras políticas eminentes a recusar embarcar naquele avião, cuja história já carregava duas falhas fatais anteriores em Paris e Nova York?
Ao aprofundar o caso, Rinaldi levantou outra camada de interpretação — a do depistaggio, do ocultamento deliberado. Segundo ele, provas e testemunhos teriam sido suprimidos para evitar que a responsabilidade da companhia se configurasse e, consequentemente, que os parentes das vítimas fossem ressarcidos. A companhia aérea em questão faliu um ano após o desastre e foi incorporada pela Alitalia, fato que, para alguns, compõe o cenário de um reframe da responsabilidade corporativa na época.
Entre os depoimentos perturbadores colhidos por Rinaldi sobresai o da esposa do piloto: ela relatou, em juízo, que o marido subia naqueles aviões tomado pelo medo, sem confiança na aeronave, chegando a levar consigo um guarda-chuva porque “chovia” dentro da cabine de pilotagem. São imagens que não se encaixam apenas em um relatório técnico; são memórias sensoriais que exigem uma leitura cultural e humana do desastre.
O aparelho, classificado por muitos como maudit, partiu de Roma Ciampino às 16:09 com destino a Milano Malpensa, onde pousaria às 18:10. O DC3, veterano da Segunda Guerra Mundial, foi amplamente usado no transporte de tropas e, na paz, continuou operando em rotas civis, ainda que com problemas recorrentes. O objetivo do trabalho de Rinaldi — que hoje se estende a um livro, um podcast e a uma primeira versão de roteiro cinematográfico — é reconstituir essas camadas e devolver à sociedade não apenas explicações técnicas, mas a responsabilidade moral de preservar a memória.
Reabrir as investigações após um encerramento inicial com “sentença di non luogo a procedere” foi um gesto de resistência contra o esquecimento. Rinaldi insiste que recordar a tragédia do Monte Ginér não é mero exercício de arqueologia jornalística; é um imperativo de memória coletiva para que o episódio não deixe de ser interrogado por novas gerações. Em seu relato ao Adnkronos, ele sublinha que resgatar aquele acontecimento é também confrontar o roteiro oculto da sociedade italiana do pós-guerra — quando interesses políticos, falhas técnicas e decisões empresariais se entrelaçavam de maneira a produzir tragédias que, muitas vezes, permaneciam sem palcos de verdade.
Como analista cultural, proponho que olhemos para este caso como um estudo da semiótica do viral antes mesmo do conceito existir: uma catástrofe que circulou em múltiplas versões e silenciamentos, moldando memórias e ausências. Se o trabalho de Rinaldi vier a se transformar em filme, como ele imagina, será interessante observar como o território da reconstrução factual dialogará com o terreno emocional das testemunhas — o verdadeiro núcleo que dá sentido à história.
Preservar a memória da tragédia do Monte Ginér é, portanto, mais do que apontar falhas técnicas; é manter acesa a chama do questionamento sobre como sociedades gerenciam responsabilidade, luto e verdade. É um convite a olhar além da superfície e a decifrar o roteiro oculto que segue moldando nosso presente.





















