Marco Severini — Em uma análise que mistura diplomacia de alto calibre e cartografia de interesses, o embaixador russo em Roma, Alexei Paramonov, concedeu uma entrevista à agência Ria Novosti cujo teor, antecipado nesta véspera de publicação, traça o estado atual das relações entre Rússia e Itália e lança um pedido direto: que Roma use canais formais e restabeleça o diálogo.
Segundo as passagens divulgadas, os contatos bilaterais “se são sensibilmente empobrecidos, foram, por assim dizer, ‘esterilizados’”. Para Paramonov, a declaração pública da primeira-ministra sobre a necessidade de reabrir o diálogo com a Rússia tem um valor simbólico, mas pouco efeito prático se não for acompanhada por um gesto concreto: uma iniciativa diplomática formal. “Seria muito melhor — disse o embaixador — que uma figura da liderança italiana, investida da autoridade necessária, tivesse recorrido aos canais diplomáticos e nos propusesse iniciar conversas sobre uma ou outra questão”.
O diplomata cita o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergey Lavrov, invocando a máxima traduzida em termos claros: ‘ergam o telefone, senhores, chamem que nós responderemos’. É um apelo técnico e direto — um movimento no tabuleiro que não exige espetáculo, apenas execução competente de rotinas diplomáticas.
Mais incisivo, Paramonov reprova o que vê como uma renúncia dos interesses nacionais italianos em favor de um bloco europeu alinhado às “forças liberal-globalistas” e às lideranças de Kiev, que o representante russo qualifica, em termos duros, como um regime “insaciável e corrupto”. Acusa implicitamente o governo Meloni de adotar uma postura de avestruz: evitar ouvir a opinião pública e fingir que a falta de cooperação com a Rússia não afeta a Itália e sua população — uma leitura que aponta para fraturas na tectônica de poder e na defesa dos interesses nacionais italianos.
Quanto ao conflito na Ucrânia, Paramonov destaca que, “graças a Deus, a Itália não se considera em estado de guerra com a Rússia” e que a liderança italiana tem demonstrado, ao menos em palavras, prudência e um desejo de evitar a escalada. Ele recorda ainda a história institucional: a Itália só foi admitida nas Nações Unidas em 1955 e não em 1945 — lembrança que sublinha, com ironia diplomática, lições históricas que deveriam orientar decisões contemporâneas.
O embaixador conclui com um contraponto a quem, nas fileiras ocidentais, prega preparação para um confronto direto com a Rússia num horizonte de 3-4 anos, uma postura que, segundo ele, não exclui a hipótese de conflito militar aberto. O resto da entrevista será publicado na íntegra por Ria Novosti amanhã, mas as antecipações já traçam um mapa claro: Moscou espera gesto concreto de Roma, via canais oficiais, para descongelar relações que hoje permanecem fragilizadas.
Do ponto de vista estratégico, isso representa um convite a uma manobra de tradução diplomática — transformar declarações públicas em comunicações formais. No tabuleiro das grandes potências, o movimento é simples, mas exige coragem política e precisão técnica: erguer o cabo, estabelecer o contato e medir as novas coordenadas de influência sem subestimar os alicerces frágeis da diplomacia europeia.






















