Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Na noite em que a Roma foi a campo contra o Cagliari, uma imagem repetiu-se nas arquibancadas do Olimpico e devolveu à torcida uma sensação de continuidade simbólica: Francesco Totti voltou a assistir a uma partida do clube que o consagrou. Após quase três anos afastado das presenças regulares no estádio — com um retorno já registrado em Roma-Stoccarda — o ex-capitão chegou acompanhado do filho cerca de uma hora antes do apito inicial.
Mais do que uma simples aparição, a presença de Totti funciona como um espelho: reflete memórias coletivas, marca a proximidade entre passado e presente e lembra que a construção da identidade de um clube não se esgota no time titular. No vácuo deixado por transformações administrativas e esportivas, figuras como Totti mantêm viva a narrativa da cidade e do clube.
Antes da partida, o diretor desportivo Ricky Massara concedeu entrevista à DAZN e ponderou sobre a eventual participação de Totti nos destinos do clube: “Francesco é a história deste clube”, afirmou. Massara destacou também que o ex-capitão e a família Friedkin preservam “um ótimo relacionamento”. “São avaliações que cabem à propriedade”, acrescentou, lembrando que a família Friedkin tem mantido como prioridade o interesse do clube.
As declarações ganham relevo por dois motivos. Primeiro, porque formalizam um diálogo respeitoso entre lendas locais e a direção americana, evitando colisões desnecessárias entre memória e gestão. Segundo, porque vêm após observações de Claudio Ranieri — conselheiro sênior dos Friedkin — que já havia aventado publicamente a hipótese de um retorno institucional de Totti à Roma. Sinais públicos como esse alimentam expectativas e exigem cuidados: são decisões que atravessam dimensão esportiva, midiática e afetiva.
É prudente lembrar que o eventual retorno de Totti à estrutura do clube pode assumir formas variadas: de embaixador institucional a posições técnicas ou administrativas. Cada alternativa carrega implicações distintas em termos de autonomia do ex-jogador, imagem do clube e reações da torcida. A propriedade, segundo Massara, fará “as devidas avaliações” — fórmula que traduz tanto o respeito à figura de Totti quanto a necessidade de ponderação estratégica.
Do ponto de vista histórico e cultural, a breve reaproximação confirma algo que venho observando: o esporte, especialmente o futebol em cidades como Roma, opera como repositório de memórias e expectativas. Estádios como o Olimpico são palimpsestos, onde camadas de gerações se sobrepõem. A volta de Totti às arquibancadas não resolve questões administrativas nem assegura decisões futuras, mas reanima um laço simbólico que a direção do clube parece disposta a preservar.
Ao fim, resta ao torcedor acompanhar os próximos passos com a mesma atenção crítica exigida pela própria história do clube: valorizar a memória, sem confundi-la com estratégia. A família Friedkin, segundo Massara, parece compreender essa distinção — e a presença de Totti no Olimpico é, por enquanto, um gesto de harmonia entre essas duas esferas.






















