Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
O dia começou como um quadro: céu límpido, luz alta sobre as montanhas, público acomodado nas arquibancadas da Tofana. Havia um otimismo quase festivo — mais americano do que europeu — alimentado pela presença de figuras inesperadas nas tribunas, como Snoop Dogg, e pela esperança de rever Lindsey Vonn no lugar mais alto do pódio. Era a promessa de um retorno que havia encantado a imprensa: o grande comeback de uma atleta que, aos olhos de muitos, já tinha reescrito capítulos inteiros da história do esqui.
As primeiras descidas foram percorridas entre aplausos e uma expectativa crescente. Passaram a italiana que não encontrou hoje seu melhor traçado, a Delago e a Pirovano — esta última com um desempenho de respeito. O clima aquecia para a número treze: era o momento em que, exatamente ao meio-dia, o sol no zênite parecia abençoar a descida.
Quando Lindsey Vonn partiu do cancelletto em Cortina, muitos recordaram o início de sua trajetória naquela pista: o primeiro pódio na Copa do Mundo em 18 de janeiro de 2004, e as 84 vitórias que a tornaram uma das esquiadoras mais vitoriosas da história. Havia, por trás da expectativa, uma narrativa que mistura recuperação, retorno tardio e redenção — ingredientes que transformam um evento esportivo em história coletiva.
O que aconteceu depois foi rápido, brutal e definitivo. Poucos segundos após deixar Pomedes, no trecho inicial que devolve à Olimpya/Stratofana a sua severidade, ocorreu a queda. Um boato percorreu a plateia; o silêncio que se seguiu não era apenas o da surpresa, mas o da apreensão imediata diante de algo que, no esqui alpino, sempre esteve presente: o risco absoluto. Ao contrário dos rituais de torcedor, não havia espaço para o espetáculo — havia apenas a preocupação pela integridade da atleta.
Os primeiros relatos apontaram para uma fratura exposta na perna esquerda. A gravidade do episódio levou à intervenção cirúrgica: Lindsey Vonn foi operada por uma fratura scomposta na perna esquerda e, posteriormente, transferida para Treviso para continuidade do tratamento. Mensagens de apoio vieram de diferentes atores: o presidente do Vêneto, Stefani, enviou um buquê de flores ao hospital, qualificando o espírito da atleta como inspirador. No mesmo dia, a cerimônia que envolvia as outras competidoras trouxe dramas próprios — Sofia Goggia dedicou sua medalha ao legado de Elena Fanchini — e mostrou como o esporte europeo carrega memórias e perdas como parte de sua paisagem.
Do ponto de vista cultural e histórico, o episódio contradiz duas narrativas simultâneas. Primeiro, a fantasia do retorno triunfal, tão cara à imagética esportiva norte-americana, que vê na volta de um ídolo a prova de que o passado pode ser recuperado; segundo, a realidade dura do esporte moderno, em que a performance é inseparável da exposição ao risco e às vicissitudes do corpo. Lindsey Vonn encarnou ambas: a história de superação e o lembrete do preço que essa trajetória pode cobrar.
Para Cortina, para a Tofana e para a memória coletiva do esqui, resta agora a análise fria: o que muda nas políticas de segurança, nas opções de pista e no próprio modo como celebramos regressos? O esporte — e em especial o esqui alpino — é sempre um espelho da sociedade que o produz: suas grandezas, suas falhas, sua necessidade de narrativas que preservem heróis. Quando o herói cai, o país do espetáculo é obrigado a olhar para o chão e repensar.
Enquanto Lindsey Vonn inicia o processo de recuperação, a cena de Cortina volta à sua rotina sob o mesmo céu azul, mas com uma marca a mais na memória coletiva. A expectativa transformou-se em apreensão; a história, em advertência. E o esporte segue, entre a celebração e a cautela, cobrando de nós uma reflexão mais prolongada sobre o que significa a vitória — e o que significa, também, o retorno.
Atualização: informações sobre transferência e cirurgia confirmadas pelas autoridades médicas locais e pela equipe da atleta.






















