Por Chiara Lombardi — Em mais um episódio do roteiro público que é o Festival, Fiorello transformou a polêmica em lente crítica e humor em sua participação no programa La Pennicanza, transmitido pela Rai Radio2 ao lado de Fabrizio Biggio. A observação do apresentador não foi apenas piada: foi um comentário sobre os mecanismos do espetáculo e sobre como determinados episódios ganham, de repente, uma ressonância midiática inesperada.
No ar, Fiorello brincou com o caso de Pucci, lembrando que, em vez de censura, o humorista acabou por se afastar — e ironizou que seu passo adiante é, de fato, um salto direto para o Eurovision. “Finalmente a polêmica em Sanremo!” disse ele, ressaltando que esse tipo de buzina pública é alimento para manchetes e debates: é o ponto de luz que recoloca o Festival no centro do discurso cultural.
Mas a análise se aprofundou: para Fiorello, a controvérsia é também um espelho do caráter de quem apresenta o Festival. Ele contrapôs dois estilos televisivos e culturais. De um lado, Amadeus, mais inclinado a surfar as polêmicas — um condutor que, segundo Fiorello, não se esquiva do dramaturgo das manchetes. Do outro, Carlo Conti, figura que opera por subtração, que normaliza o inesperado e prefere governar a cerimônia com precisão e previsibilidade. “Conti não esperava algo assim”, observou Fiorello; para ele, a situação é inédita e, paradoxalmente, benéfica para a visibilidade do Festival.
Em tom ainda mais leve, o apresentador ironizou a notícia de uma ligação entre o senador Ignazio La Russa e Pucci, imaginando um diálogo quase cômico sobre o retorno ao palco de Sanremo. A anedota funciona como microcena do entrelaçamento entre política e espetáculo, um reframe da realidade onde a esfera pública e a cultura pop se tocam.
Porém, o comentário mais instigante de Fiorello deslocou o foco: nem Pucci, nem as polêmicas habituais seriam, na visão dele, o verdadeiro elemento disruptivo da edição. A verdadeira “mina vagante” do festival, segundo o apresentador, é TonyPitony — artista que aparece mascarado como Elvis e viralizou por letras provocativas e cruas, escancarando o trash como estratégia performativa. Com presença confirmada na serata cover ao lado de Ditonellapiaga, TonyPitony representa o fio mais cortante do verniz festivaliero: não apenas escândalo, mas um reflexo cultural que desafia normas e expectativas.
Essa leitura de Fiorello convida a ver Sanremo não só como competição musical, mas como um palco onde se reescrevem identidades e se calibra o pulso do zeitgeist. Entre risos e provocações, a polêmica com Pucci funciona como pré-texto para uma reflexão maior: qual é o roteiro oculto que a sociedade escreve quando a cultura pop vira assunto de Estado?
Publicado em 09 de fevereiro de 2026.






















