Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — Em uma tarde onde a expectativa encontrava-se tão alta quanto a inclinação da pista, a combinada por equipes em Bormio desenhou-se como um espelho das contradições que marcam o esporte quando jogado sob os holofotes de uma casa: havia razão para otimismo e, ao mesmo tempo, um sentido profundo de frustração. Ao final da prova, Alex Vinatzer assumiu a responsabilidade pela queda das aspirações de medalha da Itália e definiu seu sentimento com palavras duras: “Estou em luto, pedi desculpas a Franzoni”.
Na manhã, a delegação italiana havia assegurado o melhor tempo graças à descida impecável de Giovanni Franzoni, que colocou a equipe em posição de destaque rumo à medalha. A expectativa consolidou-se em promessa. Durante o slalom de Vinatzer, porém, o roteiro mudou: o atleta fechou com o sétimo tempo e a possibilidade da tão desejada décima medalha em Milano Cortina 2026 escapou.
As palavras de Vinatzer explicitaram o peso de competir sob pressão: “Não posso negar que eu estava super nervoso na largada, foi muito difícil para mim. Influenciou também o pensamento pela prova soberba do Giovanni, ele não merecia outra coisa que não fosse a medalha. Eu quis presenteá-lo, mas no fim não aguentei”. A imagem é de um atleta que, consciente do papel coletivo, vê na própria falha um encargo moral — não apenas desportivo, mas de reconhecimento para com um colega que havia erguido a bandeira da equipe na descida.
A franqueza técnica acompanhou a autocrítica: “Sabe-se que esta é uma prova de alta pressão, porque o especialista do slalom pode ganhar tudo ou perder tudo. Eu gerenciei muito no início, não queria errar e talvez ali podia fazer melhor. A medalha era possível, mas entre o segundo e o terceiro intertempos perdi muito mais do que devia”. É uma leitura precisa do que significa competir nas margens: entre o risco controlado e a oportunidade perdida há um espaço estreito que, em Bormio, se fez decisivo.
Para além do resultado imediato, Vinatzer compartilhou o aprendizado: “Isso me deu um tapa para me acordar um pouco. Com certeza, quando estou sozinho, me é um pouco mais fácil arriscar”. A reflexão contém duas camadas: a técnica — sobre gestão de risco em provas por equipe — e a cultural, sobre o papel do atleta quando representa não apenas a si, mas uma cidade e um projeto olímpico.
A decepção italiana em Bormio é também sintoma de algo maior: a tensão inerente a sediar uma edição dos Jogos, com a pressão por resultados que alimenta expectativas públicas e midiáticas. Foi nesse clima que a performance de Franzoni criou uma promessa que, por uma margem curta mas letal, não se concretizou. A imagem que fica é a de um grupo que tem competência e coragem, mas que ainda rema contra as variáveis individuais que o esporte de alto nível inexoravelmente impõe.
Ao concluir, Vinatzer fez o gesto raro do atleta que mede o erro e olha o companheiro nos olhos: pediu desculpas. É um ato simbólico, que diz menos sobre culpa técnica e mais sobre o entrelaçamento das trajetórias pessoais dentro da narrativa coletiva de uma Olimpíada em casa.
Em termos práticos, a equipe volta ao trabalho com lições claras: calibrar a gestão emocional em provas de alta pressão, reaprender quando arriscar e quando preservar, e transformar a amarga lição de Bormio em combustível para as próximas provas individuais de Vinatzer e dos demais azzurri.






















