Giancarlo Dettori, um dos nomes mais reverenciados do teatro italiano, morreu em Milão aos 93 anos. A notícia, que ressoa como o fim de um longa cena em que o protagonista se retira do palco, confirma a perda de um intérprete que foi espelho de gerações e uma voz sensível na cena dramática do pós-guerra.
O ator nasceu em Cagliari a 5 de abril de 1932 e formou-se na Accademia Nazionale d’Arte Drammatica ‘Silvio D’Amico’ em Roma, em 1956. Pouco depois, iniciou uma trajetória de grande impacto, especialmente marcada pela longa colaboração com o Piccolo Teatro di Milano, onde, a partir de 1957 e por mais de quatro décadas, trabalhou sob a direção de nomes como Giorgio Strehler e Paolo Grassi.
No repertório de Giancarlo Dettori figuram peças clássicas que ele encarnou com uma sensibilidade rara: Coriolano de William Shakespeare, Arlecchino servitore di due padroni de Carlo Goldoni e L’opera da tre soldi de Bertolt Brecht. Sua carreira no teatro também passou pelo Teatro Stabile de Gênova e de Trieste, em trabalhos com diretores como Lamberto Puggelli e Luca Ronconi.
Entre os papéis e projetos que consolidaram sua reputação estão Il diavolo non può salvare il mondo de Alberto Moravia (1992), Il campiello de Goldoni (1993-1994) e Gli ultimi tre giorni di Fernando Pessoa (1996), espetáculo em que atuou também como encenador ao lado de Strehler e Puggelli. A carreira de Dettori revela um ator atento aos ‘soprassaltos da alma’, capaz de transformar a cena em um território onde o público se reconhece e se modifica.
Além do palco, Giancarlo Dettori deixou marcas importantes na rádio, na televisão e no cinema. Em 1975 participou de ‘Le interviste impossibili’ e apresentou o programa de rádio ‘Voi ed io’, seguido pelo varieté ‘Via Asiago Tenda’. Na televisão, foi lembrado por séries e ficções como ‘Casa Cecilia’, ao lado de Delia Scala, e por conduções em programas como ‘Giallo sera’ e ‘Insieme, facendo finta di niente’.
No cinema, sua filmografia atravessa décadas: Una storia milanese (Eriprando Visconti, 1962), L’affittacamere (Mariano Laurenti, 1976), La pretora (Lucio Fulci, 1976), Maledetto il giorno che t’ho incontrato (Carlo Verdone, 1992), Quattro bravi ragazzi (Claudio Camarca, 1993), Storie di seduzione (Antonio Maria Magro, 1994) e Gli sdraiati (Francesca Archibugi, 2017).
Do ponto de vista pessoal, Dettori foi casado com a atriz de teatro Franca Nuti (1929-2024), que morreu há dois anos. Agora, com a sua partida, fecha-se um capítulo que articulava memória afetiva e história das artes cênicas italianas.
Os funerais acontecerão na quarta-feira, 11 de fevereiro, às 14h45, na igreja de San Giorgio al Palazzo, na praça San Giorgio, em Milão. A despedida pública reúne atores, diretores e plateias que o acompanharam ao longo de uma carreira que foi, mais do que um currículo, um roteiro em que a Itália leu parte de si mesma.
Como analista cultural, vejo em Giancarlo Dettori não apenas um intérprete brilhante, mas um ponto de intersecção entre o teatro como instituição e o teatro como espelho do nosso tempo. Sua voz e sua presença corporal trabalharam como uma semiótica do viral antes do digital: uma ressonância que atravessou plateias, estações de rádio e telas. Em cenas tão diversas, Dettori nos ensinou a interpretar o mundo com precisão e ternura, oferecendo ao público uma lente crítica sobre a condição humana.
Ao nos despedirmos, resta a herança de performances que continuarão a falar com novas gerações. Essa permanência, mais do que qualquer aplauso, é o verdadeiro legado de um ator que soube transformar cada papel num cenário de transformação coletiva.
Texto: Chiara Lombardi




















