Por Otávio Marchesini – Espresso Italia
A poucos dias do início efetivo das provas em pista, a Milano Cortina volta os olhos para a Biathlon Arena de Anterselva, onde será disputada a prova masculina de 20 km. É a segunda competição dos Jogos e uma oportunidade clara para os azzurri repetirem o êxito coletivo obtido na mensagem mais recente: a medalha de prata na staffetta mista.
Nesta distância, tradicionalmente conhecida como a prova individual mais longa do programa olímpico, a combinação entre precisão no tiro e gestão do esforço é decisiva. Ao contrário das provas de perseguição ou sprint, cada erro no polígono costuma custar caro — na 20 km individual, as penalizações transformam-se em tempo e não apenas em voltas rápidas, exigindo um cálculo estratégico do ritmo e do risco.
O contingente italiano vai à pista com ambição e alguma razão: o esquadrão é formado por Tommaso Giacomel, Lukas Hofer, Patrick Braunhofer e Elia Zeni. Giacomel, que contribuiu de forma decisiva na fração de abertura da equipe mista e que chegou à prata no ano passado em Lenzerheide nos Mundiais nessa mesma distância, figura entre os favoritos ao pódio. A sua combinação de velocidade em esqui e solidez no tiro oferece um perfil adequado para os 20 km, sobretudo em condições de vento e altimetria como as de Anterselva.
Do lado dos adversários, o pelotão é denso: o francês Éric Perrot e Quentin Fillon Maillet, os noruegueses Sturla Holm Lægreid, Johan Olav Botn e Martin Uldal, além do sueco Sebastian Samuelsson, aparecem como ameaças claras. São atletas que, historicamente, combinam consistência no polígono e capacidade de manter o ritmo em provas longas — precisamente o que a prova exige.
O time italiano aproveitou o dia de descanso para treinos específicos em altitude e afinação nos tiros. A atitude do grupo, segundo relatos da delegação, é de concentração e serenidade. “Finora ho gestito bene la pressione, anche se ora inizio a realizzare che domani sarà la mia prima gara olimpica”, admitiu Braunhofer, num tom que traduz bem a mistura de nervosismo e foco que permeia atletas em estreia olímpica.
Além do aspecto técnico, há um sentido simbólico nesta disputa: o biatlo, esporte enraizado em regiões alpinas, é também um espelho das tradições regionais italianas e da aposta de longo prazo em centros de formação como Anterselva. A medalha na staffetta mista não foi apenas um resultado esportivo, mas um lembrete de que coletivos bem estruturados, com rotação de talentos e formação contínua, conseguem encurtar distâncias com potências históricas do esporte.
Na leitura mais ampla, a prova de 20 km servirá para aferir não só o momento de forma individual dos competidores, mas a capacidade das equipes de administrar o calendário e a pressão olímpica. Para os azzurri, a meta é clara: transformar o entusiasmo da prata mista em performance individual, sustentada por técnica e frieza no polígono.
O palco de Anterselva promete condições típicas: neve compacta, possíveis rajadas de vento no polígono e uma altitude que testa tanto a resistência como a gestão do esforço. Será um teste de nervos, estratégia e história — elementos que, juntos, definem o que o biatlo representa na geografia esportiva europeia.
Eu estarei acompanhando a prova com atenção não apenas aos resultados, mas ao que eles dizem sobre a evolução do esporte italiano e europeu nestes Jogos. A leitura final dificilmente reduzirá tudo a medalhas: trata-se de entender como times, formatos e memórias regionais convergem numa corrida que, mais do que distância, mede tradição e futuro.






















