Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Ainda sob o impacto da queda que encerrou prematuramente sua participação na prova de Cortina d’Ampezzo, a campeã americana Lindsey Vonn, 41 anos, foi submetida a uma dupla operação para reduzir a fratura no fêmur da perna esquerda. A intervenção ocorreu no hospital Ca’ Foncello, em Treviso, para onde a atleta havia sido transferida desde o hospital Codivilla de Cortina d’Ampezzo.
Segundo informações médicas divulgadas com restrições, a cirurgia incluiu a aplicação de um fissador externo. O procedimento contou com a presença do médico pessoal de Vonn, que acompanhou os passos da equipe cirúrgica. A campeã permanecerá internada por alguns dias para acompanhamento do pós-operatório e do processo de recuperação.
Estava previsto para a manhã um boletim oficial do hospital veneto com atualização clínica, que, no entanto, não chegou a ser divulgado: a própria atleta solicitou discrição e optou por gerir a comunicação do acidente por meio de sua equipe pessoal e da federação estadunidense. A expectativa é de que Vonn se manifeste diretamente, como costuma fazer nos momentos delicados de sua carreira, possivelmente por meio de uma mensagem nas redes sociais. Já chegaram numerosas manifestações de solidariedade — entre elas, o envio de flores pelo presidente da Região do Vêneto, Alberto Stefanile.
O episódio reacendeu um debate recorrente no esporte de elite: até que ponto a decisão de disputar uma prova em condições físicas comprometidas é uma escolha pessoal ou uma questão que exige intervenção das estruturas esportivas? Vonn competiu com um ligamento rompido, uma decisão que parte do universo técnico classificou como arriscada ou mesmo “loucura”. A descida pela pista Olympia delle Tofane durou apenas 12 segundos e terminou em queda violenta, depois que a esquiadora teria enganxado uma porta com o ombro.
Avaliando a polêmica, Kristy Coventry, presidente do Comitê Olímpico Internacional, declarou: “Não creio que possamos dizer que ela não deveria ter competido. Foi ela quem tomou a decisão de participar, em conjunto com sua equipe”. Posicionamento similar veio do presidente da Federação Internacional de Esqui e Snowboard, Johan Eliasch, que defende a autonomia do atleta: “Muitas pessoas me perguntaram se a FIS poderia intervir para decidir se os atletas devem ou não competir, mas acredito firmemente que essa decisão deve pertencer ao indivíduo. E no caso de Lindsey, ninguém conhece seus lesões melhor do que ela”.
Como analista que observa o esporte também como fenômeno social, situo este episódio numa tradição de atletas que transformam o risco em narrativa pessoal e simbólica. Vonn, figura que atravessou duas décadas do esqui mundial, encarna — para admiradores e críticos — a tensão entre coragem e gestão de integridade física. Sua escolha de competir, ainda que contestada, remete a um código de responsabilidade individual que muitas vezes colide com a lógica das instituições e com a necessidade pública de proteção aos competidores.
Restará, nos próximos dias, acompanhar a evolução clínica e, sobretudo, a palavra da própria Vonn: será dela a interpretação final do episódio. Para além do diagnóstico, fica a pergunta sobre como o esporte organizado equilibrará liberdade de decisão e dever de cuidado num cenário em que a exposição e a pressão por resultados se mantêm elevadas.
Data da notícia: 9 de fevereiro de 2026




















