Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Um coro de reclamações tomou as redes após a publicação das imagens promocionais oficiais dos Jogos de Milano Cortina 2026. Usuários e observadores apontam que as peças teriam sido produzidas com o uso de inteligência artificial — e perguntam: é assim que se deve celebrar as grandes conquistas dos atletas?
Na origem da controvérsia estão ilustrações que transformam provas do desporto de inverno em pequenas cenas montadas sobre pratos e objetos da tradição italiana: um esquiador navegando entre camadas de tiramisù, um piloto de trenó numa estrutura que lembra canelones ou penne rigate, um biatleta posicionado sobre uma fatia de lasanha. À primeira vista, a proposta é inventiva — uma espécie de homenagem culinária ao calendário desportivo. Mas detalhes técnicos e estilísticos despertaram suspeitas.
Entre os elementos que chamaram a atenção estão falhas de renderização (linhas desalinhadas num cone que simula uma descida), inconsistências simbólicas (a ordem dos anéis olímpicos numa camisa aparece trocada em relação ao emblema oficial) e erros de composição que comprometem a lógica da cena (o atirador de biathlon aparece sem esquis — uma omissão significativa para quem conhece o desporto). Comentários em plataformas como Reddit e X apontaram esses sinais como típicos de imagens geradas ou auxiliadas por IA.
Outro ponto que inflamou a discussão é a semelhança entre as ilustrações oficiais e o trabalho do fotógrafo e artista japonês Tatsuya Tanaka, conhecido por suas miniaturas que transformam objetos cotidianos em narrativas visuais. As obras do comitê organizador evocam esse estilo, mas sem qualquer menção ou crédito ao artista — o que levantou questões sobre apropriação estética, intencionalidade e respeito à autoria.
É importante sublinhar que não existe, até o momento, uma prova definitiva de que as imagens tenham sido integralmente geradas por sistemas de inteligência artificial. É plausível que tenha havido um processo humano de edição, curadoria e adaptação antes da divulgação. Ainda assim, a suspeita de uso extensivo de ferramentas automáticas, combinada com a ausência de créditos, criou uma percepção ampla de desrespeito — sobretudo entre aqueles que consideram os Jogos uma celebração da criatividade e do esforço humano.
Do ponto de vista mais amplo, a discussão ilumina duas tensões contemporâneas: a primeira, entre rapidez produtiva e autenticidade cultural; a segunda, entre inovação gráfica e reconhecimento de tradições artísticas. As imagens servem a uma função simbólica — representam não apenas eventos desportivos, mas identidades regionais, memórias coletivas e o valor da performance humana. Quando esse discurso visual é percebido como mecanizado ou derivativo, perde parte de seu peso comunicacional.
Para além da crítica, a questão prática é simples: transparência. Se houver integração de IA nos processos criativos, a instituição responsável pelos Jogos deveria esclarecer o método e reconhecer inspirações. Isso preservaria o diálogo entre inovação e responsabilidade cultural e evitaria erosões desnecessárias de confiança no momento em que a cidade-sede tenta projetar uma narrativa internacional.
Em resumo: a polêmica sobre as fotos oficiais de Milano Cortina 2026 não é apenas técnica — é simbólica. Trata-se de decidir como queremos que a Olimpíada conte suas histórias: com transparência, crédito e atenção ao simbolismo que os atletas carregam, ou com atalhos que podem comprometer esse mesmo significado.






















