Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia
Em apenas poucos dias de competição em Milano Cortina, uma questão aparentemente técnica ganhou contornos simbólicos e institucionais: diversas medalhas entregues aos atletas têm se mostrado frágeis, desprendendo-se do cordão ou mesmo danificando-se poucas horas após a cerimônia de premiação. O episódio ultrapassa o episódio doméstico de um objeto quebrado: toca o coração do que representa o gesto olímpico — o reconhecimento público do esforço e do sonho.
A primeira denúncia pública veio da norte-americana Breezy Johnson, que sofreu a ruptura da sua medalha de ouro depois de celebrar a vitória na descida livre feminina. No mesmo período surgiram relatos semelhantes envolvendo o bronze da italiana Lucia Dalmasso, o prata do cross-country de Ebba Andersson, a medalha da patinadora artística Alysa Liu (Team USA) e o bronze do biatleta alemão Justus Strelow. O conjunto de incidentes motivou questionamentos formais ao Comitê Olímpico Internacional e à Fondazione Milano Cortina.
Durante a coletiva diária no Main Media Center de Milão, Andrea Francisi, Chief Games Operations Officer dos Jogos, reconheceu a existência do problema: “Vimos que algumas medalhas se romperam, estamos analisando as imagens e tentando entender em detalhe se existe um problema”. Francisi ressaltou a sensibilidade do tema, lembrando que a medalha não é um mero objeto, mas “o triunfo e o sonho de cada atleta”.
As lembranças voltam às Olimpíadas de Paris, quando cerca de 220 peças foram recolhidas e substituídas por sinais de oxidação e deterioração precoce — naquele caso, não só o cordão, mas defeitos na pintura e nos materiais utilizados motivaram a substituição em massa. A repetição de falhas técnicas em duas edições consecutivas acende uma interrogação mais ampla: há problemas na cadeia de produção, no controlo de qualidade ou na gestão de fornecedores que atendem a eventos deste calibre?
Para além da resposta imediata — substituir as peças danificadas e apurar responsabilidades —, o episódio convoca uma reflexão mais ampla sobre a simbolicidade do objeto olímpico. A medalha é um artefato que carrega memória pessoal e coletiva, um ponto de convergência entre a narrativa individual do atleta e a história do evento. Quando esse artefato falha, a falha reverbera sobre a credibilidade institucional e sobre a experiência emocional dos vencedores.
Fontes internas da organização informaram que haverá uma auditoria técnica e documental aos lotes e aos contratos com fornecedores. Do ponto de vista prático, a prioridade é assegurar que nenhum atleta permaneça sem uma peça em perfeitas condições; do ponto de vista reputacional, o desafio é recuperar a confiança e mostrar transparência no processo de investigação.
Em cenário onde as imagens circulam instantaneamente e as reações são imediatas, a resposta das autoridades esportivas precisa combinar rapidez operacional com clareza comunicativa. Não se trata apenas de reparar metal e fita: trata-se de preservar o significado que a medalha olímpica detém para gerações de atletas e torcedores, sobretudo em Jogos realizados num país onde o esporte é também palco de identidade regional e memória social.
Enquanto a investigação prossegue, resta aos organizadores garantir que o símbolo do triunfo não seja diminuído por problemas que, em essência, deveriam ser evitáveis.






















