Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Quando o esporte se transforma em espelho das prioridades económicas e sociais de uma nação, emergem decisões que ultrapassam o campo de jogo. Em Milano Cortina 2026, a delegação norte-americana chega aos Jogos sob uma luz pouco habitual: cada integrante receberá a soma de 200 mil dólares, independentemente da colocação que atingir — mesmo no caso do último lugar.
O responsável por essa garantia é o milionário Ross Stevens, fundador e CEO do grupo Stone Ridge, que anunciou uma doação de 100 milhões de dólares destinada a toda a delegação dos Estados Unidos antes do início da competição. Na prática, os números são simples: os 100 milhões serão divididos entre os atletas, resultando em aproximadamente 100 mil dólares adicionais para cada um, que se somam aos 100 mil já assegurados a cada participante pela estrutura de apoio americana. O resultado: 200 mil dólares por atleta apenas pela participação.
Stevens explicou ao Wall Street Journal a lógica por trás do gesto: evitar que inseguranças financeiras privem atletas de alta performance de alcançar «novas fronteiras de excelência». A frase traduz uma preocupação contemporânea — não apenas com o rendimento esportivo imediato, mas com as condições materiais que permitem ao atleta dedicar-se integralmente à sua carreira.
Do ponto de vista institucional e cultural, o episódio merece uma leitura mais ampla. Por um lado, trata-se de um reconhecimento financeiro que pode reduzir o estresse económico de competidores que historicamente dependem de patrocínios, bolsas e empregos paralelos. Por outro, evidencia uma tendência em que filantropia privada assume papel decisivo na sustentação de políticas públicas e programas desportivos nacionais.
Essa dependência de capitais privados coloca questões éticas e estruturais: até que ponto o financiamento individual altera prioridades de seleção, programas de base e a autonomia das federações? E como ficam, no cenário internacional, aquelas nações sem beneméritos dispostos a conferir vantagens financeiras explícitas à sua delegação?
Não é novidade que o desporto americano combina investimento privado e institucional de maneira distinta da maioria dos países europeus. Ainda assim, a cifra anunciada para Milano Cortina 2026 cria um precedente simbólico — e potencialmente prático — para futuros jogos, onde o capital privado pode ser usado não apenas para infraestrutura, mas para subsistência direta dos atletas.
Para os competidores, a injeção financeira tem efeitos palpáveis: permite planejamento de longo prazo, acesso a melhores equipas técnicas e recuperação física sem a necessidade de comprometer o treino por motivos económicos. Politicamente, porém, a medida deve ser observada com cuidado: soluções de financiamento pontuais podem atenuar problemas, mas não substituem políticas públicas sustentadas e equitativas de formação e apoio ao esporte.
Em última análise, a doação de Ross Stevens e o papel do Stone Ridge oferecem um exemplo contemporâneo de como oligarquias filantrópicas influenciam a geografia do sucesso esportivo. Resta saber se esse padrão se ampliará, acentuando disparidades, ou se será apenas um capítulo isolado na complexa história que liga desporto, dinheiro e identidade nacional.





















