Por Otávio Marchesini – Espresso Italia
Desde as primeiras lembranças em torno das Olimpíadas de Turim 2006 até o presente, Davide Ghiotto construiu uma trajetória que espelha não só conquistas individuais, mas também a capacidade do esporte italiano de produzir figuras de resistência e continuidade. Aos 32 anos, natural de Altavilla Vicentina, membro das Fiamme Gialle e pai de dois filhos, Ghiotto chega aos Jogos de Milano Cortina como uma das referências do grupo nacional de patinação de velocidade.
Três vezes campeão mundial e medalhista de bronze em Pequim 2022 nos 10.000 metros, Ghiotto consolidou um ano pré-olímpico notável: em janeiro de 2025, estabeleceu o melhor tempo da prova — 12:25.692 — na Copa do Mundo realizada em Calgary, marcando seu nome também como detentor de um recorde mundial histórico para a Itália. Nos Mundiais de Hamar, na Noruega, o atleta repetiu sua consistência sobre as distâncias longas, conquistando o terceiro ouro consecutivo nos 10.000 metros e somando um valioso prata no inseguimento por equipes.
Essa especialização nas provas de longa duração, porém, não impede que Ghiotto mantenha ambições nas distâncias intermediárias. Ao contrário: o início de 2026 trouxe um bronze nos 5.000 metros no Campeonato Europeu, ao mesmo tempo em que voltou a erguer a taça no inseguimento a equipes. Em termos esportivos, há um equilíbrio entre o estatuto de recordista e a busca por novas formas de contribuição coletiva — algo que define muito do atualmente valorizado na prática esportiva italiana.
Milano Cortina representa para Ghiotto a terceira participação olímpica — depois de Pyeongchang 2018 e Pequim 2022 — e a oportunidade de competir em casa tem um efeito simbólico que transcende o resultado. A rotina de um atleta veterano, marcada por disciplina e escolhas existenciais (conciliar família, clube e treinamentos de alto rendimento), traduz-se agora em uma responsabilidade pública: preservar e ampliar uma memória coletiva que liga gerações por meio das pistas de gelo.
No cronograma, a Olimpíada de Ghiotto começa com a prova dos 5.000 metros no Milano Speed Skating Stadium, em Rho. Em seguida, há a expectativa pelo inseguimento por equipes, previsto para 17 de fevereiro, e pelo seu evento de predileção — os 10.000 metros — marcado para sexta-feira 13. São datas que reúnem técnica, resistência e estratégia, e que deverão mostrar tanto o homem do recorde quanto o componente de uma equipe que tem crescido tecnicamente.
Como observador atento das estruturas que sustentam o esporte, penso em Ghiotto não apenas como um especialista das longas distâncias, mas como um eixo de verificação das políticas de formação e de investimento italianas no gelo. Seu percurso evidencia que, mesmo em modalidades marginalizadas em termos de audiência, é possível construir continuidade competitiva e identidade nacional. A expectativa, portanto, não é apenas por mais uma medalha, mas por um capítulo que confirme a patinação de velocidade italiana como patrimônio esportivo com raízes e futuro.
Otávio Marchesini, repórter de Esportes da Espresso Italia





















