Por Chiara Lombardi — Em um retorno que é ao mesmo tempo um movimento de memória e um gesto profético, Ermal Meta anuncia sua volta ao Festival de Sanremo após cinco anos. Com o single “Stella stellina”, o artista escolhe um tom contido e potente para tratar do drama que assola crianças em zonas de conflito, sem nomear diretamente o conflito. O novo álbum, cuja saída está marcada para 27 de fevereiro, chega em sintonia com essa urgência.
“Há momentos em que é importante falar também dos filhos dos outros, ou melhor, dos filhos de todos”, diz Ermal Meta, descrevendo a canção que nasceu de uma reação imediata às imagens que vieram da Palestina e foi intensificada pela recente experiência da paternidade. A composição, nas palavras do cantor, surgiu quase que de forma violenta e instantânea — um impulso que precisava ser traduzido em música.
Stella stellina conta a história de uma menina palestina deliberadamente sem nome, tornando-se assim rosto coletivo de todas as crianças inocentes que pagam o preço da violência dos adultos. O ponto de vista é o de um homem observador, que devolve ao público um olhar íntimo sobre uma tragédia que é, ao mesmo tempo, pessoal e coletiva — o tipo de cena que funciona como um espelho do nosso tempo.
Musicalmente, a canção aposta em sonoridades do Levante — resultado da colaboração com Dardust e do uso de instrumentos como o oud — para criar uma tessitura sonora que reforça o impacto emotivo do relato. A escolha instrumental não é apenas estética: é um reframe cultural que busca aproximar audição e testemunho, transformando a música em veículo de empatia.
Ao comentar a gênese da faixa, Ermal revelou que, ao ver imagens de crianças sem futuro, sentiu uma espécie de choque interno. Algumas horas depois, enquanto tocava para sua filha, a canção emergiu “vomitada” — expressão crua que confirma a urgência que carregou a criação. A paternidade, segundo ele, ampliou sua empatia; “minha capacidade de ser empático aumentou, quase vivo sem pele”, confessa, numa frase que sintetiza a intensidade afectiva por trás do projeto.
Embora a inspiração imediata venha de Gaza, Meta sublinha a dimensão universal do tema: a protagonista pode representar “qualquer menina inocente”, porque as crianças não devem pagar o preço da loucura dos adultos. E no seu papel de artista, ele se posiciona com claridade: o que lhe interessa é o humano, não a retórica política. A responsabilização que sente é antes consigo mesmo — a necessidade de não ocultar o que sente e de converter esse sentimento em música que provoque reflexão.
Sobre a hipótese de levar Stella stellina ao Eurovision Song Contest em caso de vitória, Ermal é firme: boicotar seria um erro. “Existem formas diversas de protestar; uma delas é estar presente e dizer o que se pensa”, afirma. Para ele, cantar sobre “uma casa que está a arder” naquele palco significaria amplificar a mensagem e colocar o roteiro oculto da sociedade em evidência num cenário internacional.
O retorno ao Ariston, portanto, não é apenas o reencontro com uma sensação visceral que aperta o estômago — é também um gesto público que transforma divergência e dor em narrativa compartilhada. Stella stellina propõe esse espelho cultural: escutar para ver, sentir para traduzir, porque a música continua sendo uma das formas mais potentes de dar voz ao que muitas vezes é silenciado.
Por Chiara Lombardi — Espresso Italia



















