O Departamento de Estado dos Estados Unidos iniciou a remoção de todos os conteúdos publicados em suas contas oficiais na plataforma X anteriores à posse da nova administração em 20 de janeiro de 2025. A ação inclui postagens dos mandatos de Joe Biden, Barack Obama e do primeiro mandato de Donald Trump. Embora os materiais sejam preservados em arquivos internos, eles deixarão de estar acessíveis publicamente; o acesso ficará condicionado a pedidos formais via Freedom of Information Act (FOIA), um processo notoriamente lento e sujeito a omissões por questões de segurança ou sigilo.
A decisão representa uma ruptura clara com práticas anteriores de preservação da pegada digital do governo, quando registros históricos eram mantidos visíveis ao público — muitas vezes migrados para contas de arquivo dedicadas, tal como ocorreu com perfis presidenciais. Desta vez, a diretriz atinge toda a rede do Departamento de Estado, abrangendo embaixadas, missões diplomáticas e escritórios regionais, removendo anos de comunicados, imagens de encontros bilaterais e crônicas diárias que frequentemente constituíam a única trilha pública de eventos internacionais.
Os porta-vozes do Departamento justificam a medida pela necessidade de evitar confusão sobre a política externa contemporânea e de falar com uma voz unificada em apoio à agenda “America First”. No entanto, a iniciativa se insere em um movimento mais amplo de revisão de dados governamentais, que já incluiu a retirada de informações sobre meio ambiente e saúde e até o fechamento de recursos históricos como o World Factbook da CIA, publicado sem interrupções desde 1962.
Especialistas em comunicação política e acadêmicos levantam preocupações sobre o aumento das barreiras ao acesso público. Ainda que os registros sejam formalmente preservados sob o Federal Record Act, a perda do acesso imediato e pesquisável em plataformas públicas reduz significativamente a transparência e a capacidade de reconstruir a história diplomática recente. Ao deslocar o acesso público para processos burocráticos, o governo troca uma infraestrutura de consulta direta por um sistema nervoso mais lento e centralizado.
Do ponto de vista técnico e institucional, trata-se de uma mudança na gestão dos arquivos digitais que afeta não apenas a disponibilidade dos conteúdos, mas também sua qualidade pesquisável: metadados, timestamps, e links públicos são elementos essenciais para reconstituir cadeias de eventos. Sem esse fluxo de dados livremente consultável, pesquisadores, jornalistas e observadores internacionais — incluindo atores na Itália e na Europa — ficam dependentes de pedidos que podem ser atrasados, parcial ou totalmente censurados.
Há também uma dimensão política: a centralização dos canais institucionais em torno de uma narrativa administrativa transforma canais tradicionalmente de serviço público em vetores de mensagem política. Essa alteração do limite entre governo e propaganda institucional compromete a confiança nas instituições como repositórios neutros de memória pública.
Para mitigar o impacto, recomenda-se que governos e arquivos nacionais europeus pressione por salvaguardas técnicas e legais: migração para contas de arquivo imutáveis, espeçamento de cópias em repositórios independentes, e a exigência de que metadados permaneçam publicamente acessíveis. Em termos de infraestrutura digital, é uma chamada para reforçar os alicerces que sustentam a memória coletiva — garantindo que o fluxo de dados permaneça auditável e que o sistema nervoso informativo das democracias não seja silenciado por decisões administrativas.
Riccardo Neri — Espresso Italia




















