Por Marco Severini — Em jogo diplomático de alto risco, a delegação do Movimento 5 Stelle no Parlamento Europeu lançou uma cobrança direta à Comissão Europeia: reconhecer publicamente o que, segundo a Comissão Internacional Independente de Inquérito das Nações Unidas, configura um genocídio em Gaza. O pedido, formalizado por meio de uma interpelação parlamentar, aponta também para o mandato de prisão emitido contra o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu por alegados crimes internacionais.
Os autores da interpelação — os eurodeputados Gaetano Pedullà, Mario Furore, Danilo Della Valle e Dario Tamburrano — questionam a reticência de Bruxelas: “Por que a Comissão não toma posição pública sobre os pronunciamentos das cortes internacionais e da ONU relativos a crimes cometidos por Israel?”. A pergunta é tanto uma crítica ao silêncio quanto à resposta hesitante que a União Europeia dá diante da crise arabo‑israeliana.
Em sua réplica, a Alta Representante para a Política Externa e de Segurança da UE, Kaja Kallas, evitou uma categorização jurídica da conduta israelense. Kallas reafirmou que a UE “não formula por si só avaliações jurídicas sobre comissões de crimes internacionais” e que tais qualificações dependem de apurações judiciais conduzidas com respeito ao devido processo. A resposta inclui ainda a reafirmação do apoio europeu ao papel dos tribunais internacionais, entre eles a Corte Internacional de Justiça e o Tribunal Penal Internacional (CPI).
O que está em questão é uma tensão familiar na diplomacia europeia: a coexistência entre declarações de princípio e a relutância em assumir rótulos jurídicos pesados quando os atores envolvidos são parceiros estratégicos. A Comissão, sob liderança de Ursula von der Leyen, tem historicamente adotado linguagem contundente contra a Rússia — não hesitando em falar em “crimes de guerra” e em responsabilizar o presidente Vladimir Putin —, enquanto para o caso israelense prefere o caminho da chamada “retórica normativa” e de exortações ao respeito do direito internacional.
Do ponto de vista estratégico, trata‑se de um movimento calculado no tabuleiro das alianças: por um lado, preservar canais diplomáticos e a cooperação em segurança; por outro, evitar rupturas que poderiam agravar fissuras regionais. Ainda assim, para o Movimento 5 Stelle e seus signatários, essa moderação traduz um duplo padrão que mina a coerência da política externa europeia e fragiliza os alicerces da justiça internacional.
Como analista, enxergo nesta troca a clássica tensão entre norma e interesse — a chamada tectônica de poder que modela as respostas dos Estados e das instituições. A exigência dos eurodeputados do M5S busca forçar um movimento decisivo no tabuleiro: transformar pronúncias factuais e mandados judiciais em uma declaração política que espelhe, nas palavras, a severidade das acusações. A resposta de Kallas, por sua vez, é exemplar da cautela institucional: há uma clara preferência por postergar uma determinação jurídica até que tribunais competentes concluam seus processos.
Resta a pergunta estratégica: a União Europeia optará por permanecer na zona segura das apelos e recomendações, ou fará a movimentação arriscada — porém simbolicamente poderosa — de reconhecer oficialmente o alegado genocídio em Gaza? A escolha terá consequências para a credibilidade jurídica e política de Bruxelas, para a coesão interna do bloco e para o papel europeu no desenrolar futuro do conflito.
Em resumo, a interpelação do M5S expõe as fragilidades da diplomacia comunitária quando confrontada com denúncias graves e com processos internacionais em curso. A resposta oficial, com sua ênfase no devido processo, preserva a prudência institucional — mas alimenta críticas sobre inconsistência e moralidade na política externa da UE. No tabuleiro global, trata‑se de um xeque que a Comissão preferiu neutralizar, em vez de responder com um movimento claro.





















