Milano — Em meio à movimentação pré-competitiva para Milano Cortina 2026, o esquiador freestyle Gus Kenworthy tornou-se alvo de ameaças e insultos nas redes sociais depois que uma foto sua, com a inscrição “Fuck ICE” escrita na neve entre os esquis, viralizou no Instagram. A imagem, que expressava uma posição política clara contra a agência de imigração americana, gerou uma onda de reações — de apoio a hostilidade aberta — e provocou a intervenção das autoridades desportivas britânicas.
Kenworthy, atleta e figura pública conhecido por seu ativismo em defesa dos direitos LGBT e por posições sobre questões humanitárias, tem dupla cidadania, norte-americana e britânica, e está confirmado para competir na próxima semana. A British Olympic Association já informou que ativou serviços de apoio psicológico e de segurança para o esquiador de 34 anos, ressaltando que o Team GB trata com seriedade o bem-estar dos seus atletas, particularmente em situações de abuso e ameaças via redes sociais.
No vídeo publicado pelo próprio Kenworthy — que em pouco tempo ultrapassou 27,4 mil visualizações — o atleta conta que recebeu uma carga mista de mensagens: muitas de solidariedade, mas várias de teor violento. “Recebi mensagens me dizendo de me matar, que esperam que eu quebre o joelho ou que quebre o pescoço”, relatou ele, traduzindo o teor das mensagens que chegaram após a viralização do post. Em tom reflexivo, acrescentou que essa pode ser uma das consequências de quem se posiciona publicamente: “Talvez esse seja o preço de falar alto, mas penso ser importante dizer no que acreditamos e resistir às injustiças”.
O episódio ilustra duas questões centrais que ultrapassam o resultado esportivo: a crescente politização das plataformas digitais e a exposição dos atletas quando assumem posições públicas. Kenworthy não é um nome isolado nessa dinâmica — nas últimas temporadas, esportistas de alta visibilidade passaram a ocupar espaços de debate político e social, trazendo para as pistas e arenas conversas que antes ficavam restritas a fóruns civis.
Da perspectiva institucional, a resposta do Team GB segue uma tendência europeia de oferecer suporte proativo a competidores que enfrentam ataques online. Além do acompanhamento psicológico, federações e comitês olím-picos têm procurado reforçar protocolos de seguran-ça digital e coordenação com autoridades locais quando há ameaças concretas.
Para a opinião pública italiana e para os organizadores de Milano Cortina, a situação levanta um desafio de convivência entre liberdade de expressão e segurança pessoal. Estádios, pistas e vilas olímpicas são espaços de competição mas também de encontro simbólico entre nações e narrativas. Quando um gesto — até então pessoal e simbólico — se transforma em catalisador de ódio, impõe-se a pergunta sobre as responsabilidades dos atores envolvidos: atletas, plataformas e organizações desportivas.
Kenworthy disse ainda que é possível amar os Estados Unidos e ao mesmo tempo criticar políticas específicas; que seu gesto não deveria anular o direito ao debate. A partir dessa premissa, cabe observar como as instituições e a sociedade vão lidar com o efeito colateral mais imediato: garantir a integridade física e psicológica do atleta, sem silenciar a função crítica que muitos competidores escolheram exercer.
Enquanto a atenção das redes segue dividida entre apoio e repúdio, o caso de Gus Kenworthy funciona como termômetro de tempos em que a fronteira entre esporte e política se torna cada vez mais porosa. A disputa nas pistas continuará na próxima semana; o debate fora delas, ao que tudo indica, está apenas começando.
Otávio Marchesini — Espresso Italia





















