Por Chiara Lombardi — A história de uma figura pública muitas vezes funciona como um espelho do nosso tempo: reflexos, versões e contraverdades que revelam algo maior sobre memória coletiva e fascínio pelas origens. É esse roteiro oculto que voltou a rondar a vida da Patrizia De Blanck, a controversa contessa italiana cuja genealogia já foi objeto de debates públicos e reportagens.
Em 2020, uma investigação do semanário Oggi, dirigido por Umberto Brindani, reacendeu dúvidas sobre os títulos nobiliárquicos e as raízes da condessa. Segundo a reportagem, Patrizia teria dado ao longo do tempo até três versões diferentes sobre suas origens. Em uma delas, Guglielmo (por vezes grafado como Guillermo De Blanck) seria, na verdade, um pai adotivo; o título de “conde” teria raízes remotas — um antepassado teria recebido a honraria no século XV após uma doação — e, mesmo assim, havia quem questionasse se a família De Blanck constava nos registros oficiais.
O especialista em heráldica Pierfelice Degli Uberti foi claro ao consultar o repertório estatal de 1921: “Não consta nenhuma família De Blanck” entre a nobreza italiana daquele catálogo. A ausência nos anais oficiais alimentou a sensação de que a identidade nobiliárquica poderia ser mais uma encenação social do que uma linhagem certificada.
Outra hipótese, avançada pelo jornalista Giangavino Sulas, acrescentou um capítulo ainda mais sensacional: segundo sua apuração, Patrizia poderia ser filha de Asvero Gravelli, figura do fascismo — jornalista e escritor próximo de Mussolini. A reconstrução arguia que Gravelli seria fruto de uma relação entre o ditador e uma mulher de Predappio, tornando Patrizia, nessa hipótese, uma espécie de nipote do Duce, por via de uma linhagem não oficial.
Mas a narrativa pública nem sempre permanece em aberto. Poucas semanas após as especulações, um documento apresentado no programa Live – Non è la d’Urso apontava para outra versão: tratava-se de um suposto certificado do Ministério da Justiça de Cuba, onde constaria que Patrizia teria nascido do casamento entre Guillermo De Blanck e Lloyd Dario (a mãe). A apresentadora afirmou que o documento fora obtido pelo barão Ivan Drogo, e usou-o para negar qualquer parentesco com Mussolini.
Sobre as acusações e rumores, a filha de Patrizia, Giada, reagiu com veemência: “São notícias falsas e difamatórias” — uma declaração curta, mas carregada, que busca encerrar o debate e reposicionar a narrativa pública. Ainda assim, a questão permanece como um estudo de caso sobre como histórias de linhagem e prestígio atravessam o imaginário coletivo e se tornam, por vezes, palco de especulações e de disputas sobre memória.
Mais do que esclarecer nomes e datas, o embate em torno da origem da contessa é um pequeno laboratório do que chamamos de eco cultural: por que uma possível ligação com o Duce provoca tanto interesse? Talvez porque, nas tramas da fama, as ancestrais histórias de poder continuam a oferecer narrativas que reescrevem, para o público, o passado e a identidade de indivíduos que se transformaram em ícones mediáticos.
Publicado em 2026-02-09.




















