Por Chiara Lombardi — Em tempos em que a ciência frequentemente precisa disputar o microfone com o sensacionalismo, o físico e divulgador siciliano Zichichi foi uma figura que encarnou esse embate com tempero televisivo. Mais do que pelos laboratórios de Gran Sasso ou pelo centro de ciência de Erice, a sua popularidade junto ao grande público navegou nas ondas do entretenimento: foi amplificada pelas imitações de humoristas e pela sua própria presença em programas matinais.
Na tradição do espelho que o entretenimento levanta sobre a sociedade, Zichichi tornou-se um personagem público com um roteiro claro: desconstruir a ideia de que o calendário e os signos tivessem qualquer validade científica. Em participações recorrentes em Matina in famiglia (1998-2002), a sua postura — uma mistura de autoridade acadêmica e ironia contida — transformava o debate sobre o horóscopo em espetáculo didático. Era quase um reframe teatral, onde o cientista desmontava, um a um, os supostos poderes dos signos zodiacais.
Esse gesto de desmontagem tinha, paradoxalmente, um efeito performático que convidava à cópia. Não surpreende que figuras como Ezio Greggio e Maurizio Crozza tenham encontrado no professor um ouro cênico. Greggio, dentro do universo satírico de Drive In, criou uma versão caricata — com peruca e adereços — que imitava o cientista em laboratório, sob o simbolismo do Gran Sasso, entre fotões imaginários e rochas de cartapesta. Crozza, por sua vez, fez de Zichichi figura recorrente em seu repertório de impersonações, convertendo jargões científicos em frases de humor que também expunham a fragilidade das superstições.
O professor brincava com a própria imagem: fingia não lembrar o nome das “bestas” zodiacais, e deixava à apresentadora — a sempre elegante Roberta Capua — o papel de socorrê‑lo. Era um pequeno teatro de declarada antipatia pelos signos, mas também uma lição pública sobre método e evidência. A sua frase favorita — que a correlação entre datas e signos é uma convenção sem fundamento científico, remonta a convenções estabelecidas séculos antes de Cristo — soava como um corte seco num roteiro que mistura fé, entretenimento e desinformação.
A repercussão desses episódios excedia o simples riso: a imagem de Zichichi entrou num jogo cultural mais amplo, onde ciência e espetáculo negociam audiência. E quando o seu nome foi associado a um cargo público — assessor aos Beni culturali da Sicília — o estardalhaço aumentou. A nomeação, numa gestão em que Franco Battiato assumiu turismo e espetáculo, transformou a equipe do então presidente Rosario Crocetta (2012) num curioso panteão de vozes heterogêneas, entre poética administração e ideias científicas fora do molde.
O legado televisivo do professor, entretanto, guarda uma lição: a visibilidade pública da ciência pode ser tanto alvo de sátira quanto ferramenta de esclarecimento. As imitações de Greggio e Crozza não diminuíram a seriedade do seu trabalho — ao contrário, ampliarem o debate, obrigando o público a enxergar, no riso, o roteiro oculto que define crença e conhecimento. Em cena, como no cinema, um personagem pode ser espelho e provocador; Zichichi foi ambos.




















