Quatro meses após assumir o histórico posto de primeira mulher a chefiar um governo no Japão, Sanae Takaichi, 64 anos, transformou a curta vigência inicial em vitória eleitoral clara, reforçando sua liderança dentro do tabuleiro político nipônico. Conservadora convicta e declarada admiradora de Margaret Thatcher, a premiê projeta-se como um falcão nas áreas de defesa, segurança econômica e imigração.
Herança de um Partido Liberal Democrático fragilizado por alta inflação, escândalos financeiros e pelo avanço do partido populista e anti‑imigração Sanseitō, a liderança de Takaichi representou um movimento decisivo para recompor alianças e recuperar eleitorado. Ainda no início de seu mandato, ela não hesitou em traçar limites estratégicos: deixou subentendido que Tóquio poderia intervir militarmente caso a China lançasse um ataque contra Taiwan, a ilha que Pequim reivindica como território seu.
Como ex-ministra da segurança econômica, Takaichi já vinha adotando uma postura dura em relação a Pequim e ao seu rearmamento no Indo-Pacífico. Em visita oficial a Taiwan no último abril, qualificou como “crucial” o fortalecimento da cooperação em matéria de segurança entre Taipei e Tóquio — um posicionamento que redesenha, de modo palpável, as linhas de influência na região.
No plano simbólico e cultural, a primeira‑ministra mantém hábitos e gestos que reverberam além da diplomacia convencional. Frequentadora habitual do Santuário Yasukuni, local polêmico por celebrar figuras associadas ao passado militarista japonês, ela sinaliza uma leitura da história que provoca desconforto em países vizinhos. Ao mesmo tempo, mescla tradição e diplomacia pública com episódios inusitados: ex‑baterista de uma banda universitária de heavy metal, protagonizou recentemente um encontro descontraído com o presidente sul‑coreano Lee Jae‑myung, no qual tocou duas canções pop coreanas — um vídeo que gerou elogios e dúvidas, a ponto de alguns sugerirem (sem provas) manipulação por inteligência artificial.
Reproduzindo a linha do seu mentor, o ex-primeiro‑ministro Shinzo Abe — um dos alicerces da sua formação política — Takaichi também buscou rapidamente alinhar‑se com o eixo transatlântico simpatizante de Washington. Não poupou elogios ao ex-presidente Donald Trump e chegou a enviar presentes simbólicos: uma bolsa de golfe, um putter e cortes de carne bovina dos Estados Unidos.
Apesar de invocar Thatcher como ídolo, a premiê demonstra pouco interesse em instrumentalizar seu gênero para fins eleitorais. Suas posições públicas a colocam à direita de um já conservador Partido Liberal Democrático. No terreno social, opõe‑se à revisão de uma lei do século XIX que exige que cônjuges adotem o mesmo sobrenome — uma norma que, na prática, empurra a maioria das mulheres a assumir o sobrenome do marido. No plano pessoal, sua vida privada já foi objeto de curiosidade: foi casada duas vezes com o mesmo homem, um ex‑parlamentar.
Na economia, Takaichi advoga por uma combinação de afrouxamento monetário agressivo e forte gasto fiscal — um eco direto das famosas “Abenomics” de Abe. Se implementadas em larga escala, essas medidas podem provocar reações significativas nos mercados financeiros globais, representando um movimento de alto risco no xadrez econômico internacional.
Ao consolidar sua vitória, Sanae Takaichi não apenas fortalece sua posição doméstica: ela propõe um redesenho sutil, porém efetivo, das fronteiras invisíveis da influência regional — um reposicionamento que requer atenção por parte de aliados e rivais. Como em uma partida de xadrez de alta complexidade, cada gesto, cada visita a um santuário, cada declaração sobre Taiwan ou a China representa um lance com repercussões estratégicas de longo prazo.






















