Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em uma noite que combinou espetáculo simbólico e emoção íntima, Casa Italia transformou o centro de Livigno numa pequena varanda nacional. Um feixe de luz nas cores do tricolore recortou o céu da vila alpina; um campanaccio soou enquanto Lucia Dalmasso atravessava o portão do centro Aquagranda segurando o seu bronze. O objeto, primeiro pódio azzurro conquistado nesta edição em Livigno, foi tratado com a reverência de quem guarda um património afetivo.
A medalha permaneceu junto ao corpo da jovem atleta, protegida dentro do casaco: Dalmasso contou que o medalhão chegou a desprender-se do cordão por duas vezes, reforçando a imagem de um troféu que escapou por pouco à arena do cotidiano e voltou logo a ser abraçado ao peito. A sua dedicatória foi clara e sem teatralidade: para o avô que lhe transmitiu a paixão pela neve. Nesse gesto simples está condensada a narrativa que move muitos atletas italianos — a herança familiar como escola inicial de um sonho.
As lágrimas, recém-secadas, deixaram espaço a frases que revelam tanto a alegria quanto a consciência coletiva da atleta: ela lamentou pelos companheiros, admitindo que torceu por Fischnaller até o fim, e expressou remorso por ter derrotado duas colegas de equipe para alcançar o pódio. Há aqui uma tensão contemporânea no desporto moderno — a concorrência entre compatriotas num mesmo sistema de formação — que se resolve em afetos e reconhecimento mútuo mais do que em rivalidades espetaculares.
Os pais acompanharam a celebração; o pai, símbolo de uma comunidade que participa fisicamente do triunfo, tocou o campanaccio em sinal de júbilo. A cena remete a uma Itália onde vilarejos alpinos continuam a ser palcos de pequenas epopeias pessoais, e onde o Estado esportivo e as identidades locais se encontram na mesma praça iluminada pelo tricolor.
Embora singela nos gestos, a festa em Livigno tem significado maior. Trata-se do reconhecimento de que os grandes eventos residem também em micro-histórias: a persistência de uma atleta, a transmissão intergeracional de um gosto pela neve, e a capacidade de um território em transformar vitórias individuais em rito coletivo. Para além da medalha, fica a imagem de uma comunidade que celebra e se reconhece no triunfo de uma de suas filhas.
Em termos de memória esportiva, a noite reforça ainda a ideia de que locais como Livigno não são apenas cenários técnicos, mas atores culturais na construção da narrativa dos jogos. O pódio de Lucia Dalmasso será lembrado não só como um resultado desportivo, mas como um episódio no qual tradição, família e identidade nacional se encontraram sob a luz do tricolore.






















