Milano Cortina começou a deixar marcas além das pistas: segundo o secretário-geral do Coni, Carlo Mornati, a Itália soma “cinco medalhas hoje, oito em dois dias”, um saldo que considera “um belo bottino” e superior a edições anteriores. A declaração foi dada em Casa Italia, em Livigno, onde Mornati participou da comemoração pelo bronze no slalom gigante paralelo de snowboard conquistado por Lucia Dalmasso.
Com a frieza de quem observa padrões e não apenas resultados imediatos, Mornati avaliou o desempenho como provisório mas promissor: “É um ótimo traguardo, os números são sempre relativos mas é um bottino melhor de algumas edições do passado. Aguardamos o fim para fazer as contas, embora eu esteja extremamente satisfeito que em cada disciplina todos os atletas lutaram e puderam competir no melhor de suas possibilidades.”
O dirigente ainda recorreu a uma imagem caseira para traduzir a gestão de curto prazo: “Estamos colocando feno no celeiro, haverá dias mais discretos” — admitiu, numa mensagem que combina ambição e prudência financeira e esportiva, tão característica da administração do desporto italiano em momentos de sucesso.
O mérito do “sistema horizontal”
Mais do que celebrações individuais, Mornati enalteceu o que chamou de sistema horizontal do Coni: a capacidade de sustentar movimentos inteiros, formar bases e colher resultados que não dependem apenas de uma estrela. “Levamos adiante movimentos inteiros. Tínhamos uma equipe masculina fortíssima no paralelo; resta a amargura por eles, mas a beleza de ter um movimento compacto é que, quando não se chega com a ponta de diamante, chega quem se aplicou e naquele momento faz melhor do que os outros.”
Essa visão remete a uma tradição italiana de institucionalizar o esporte como ferramenta social: clubes, federações e programas de base que alimentam o alto rendimento, em contraste com modelos centrados exclusivamente em investimentos pontuais para atletas-estrela. É uma leitura que considera o esporte como ecossistema — com redundâncias desejáveis e reservas que se ativam quando necessário.
O significado do bronze de Dalmasso
O pódio de Lucia Dalmasso tem contornos mais amplos do que a medalha em si. Representa a tradução prática do tal sistema horizontal: uma atleta que encontrou no contexto certo — equipe técnica, competição e apoio de estrutura — a condição para transformar dedicação em resultado. Em termos simbólicos, reforça a ideia de que os frutos deste ciclo não são episódicos, mas parte de uma produção contínua.
Por fim, o balanço inicial de Carlo Mornati é ao mesmo tempo satisfação e chamada à calma: os números se somam agora, mas a verdadeira leitura será feita ao término dos Jogos. Enquanto isso, sobra a imagem concreta de uma delegação que, em Livigno e além, tem conseguido traduzir investimento coletivo em presença no pódio.
Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes da Espresso Italia. Análise e contexto sobre o significado institucional das conquistas italianas em Milano Cortina.





















