Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em entrevista ao programa Radio Anch’io Sport da Rai Radio 1, Giovanni Malagò, presidente da Fondazione Milano-Cortina 2026, assumiu postura lúcida diante da repercussão midiática que acompanhou os recentes eventos: «Não me surpreendi e fiquei feliz que os eventos olímpicos estivessem no centro da cena mediática e que o futebol tenha chegado depois».
A observação de Malagò não é apenas um comentário sobre preferência editorial ou ciclos de atenção do público; é uma leitura sobre prioridades culturais e sobre como eventos de magnitude global redefinem o mapa de visibilidade do esporte. Ao lembrar que a Milano-Cortina 2026 colocou no palco internacional competições que ocupam o imaginário coletivo, Malagò traça um paralelo entre a urgência de organizar e valorizar o legado olímpico e a necessidade de reavaliar o presente do futebol italiano.
Sobre a seleção e o horizonte esportivo, o dirigente foi enfático: «A qualificação para o Mundial será um divisor de águas. A partir daí é possível relançar-se, voltar a ser competitivos». A frase denuncia confiança no valor simbólico e prático de grandes competições para recompor trajetórias em crise — algo recorrente na história do futebol italiano desde o pós-guerra, marcada por alternâncias entre êxitos formidáveis e episódios de fragilidade institucional.
Malagò também alertou para a necessidade de mudança de postura: «Quem hoje se ocupa do futebol, acredito, compreendeu quais são os problemas. Porque, se não se mudar de atitude, a situação deixa de ser sustentável». É um julgamento que ultrapassa o resultado imediato no campo e incide sobre gestão, formação, modelos econômicos e prioridades culturais — os pilares que sustentam o futuro do esporte.
Enquanto a Itália se prepara para hospedar os Jogos de Inverno, a declaração do presidente da Fundação Milano-Cortina 2026 funciona como um convite à reflexão: o espetáculo de inverno, celebrado internacionalmente, pode e deve servir de estímulo para que o futebol repense seus modelos. Estádios, federações, clubes e atores públicos enfrentam hoje um desafio coletivo que é tanto esportivo quanto social — decisões estratégicas tomadas agora terão repercussões para a identidade do futebol italiano nas próximas décadas.
Em último plano, Malagò enquadra o debate na longa narrativa italiana: do auge pós-guerra às crises contemporâneas, o futebol permanece um espelho. A batalha pública por atenção entre Jogos Olímpicos e o calendário futebolístico revela, sobretudo, prioridades: como sociedade e como sistema esportivo queremos equilibrar tradição e inovação, memória e planejamento.
Mais do que uma reação a um episódio midiático, as palavras de Malagò são uma chamada para responsabilização: aceitar que os holofotes fujam momentaneamente para os Jogos é uma coisa; permitir que o futebol perca sustentação estructural por falta de mudanças é outra bem mais grave.
Foto: Giovanni Malagò durante a entrevista na Rai Radio 1. Reprodução reservada © ANSA





















