Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — Livigno
Uma imagem simples, mas carregada de simbolismo, definiu a vitória do austríaco Benjamin Karl no gigante paralelo de snowboard em Milano Cortina 2026. Na final disputada em Livigno, Karl, de 40 anos, superou o sul-coreano Kim Sangkyum e, em seguida, protagonizou uma celebração que rapidamente se tornou o foco da cobertura: arrancou a camiseta e o peitoral, mostrou os músculos e festejou o ouro sobre a neve.
O gesto não foi improvisado nem mero exibicionismo: era um tributo explícito ao conterrâneo e ícone dos esportes de inverno, Hermann Maier. “Foi uma homenagem a Hermann Maier — disse o atleta austríaco —. Ele foi um dos maiores esquiadores de todos os tempos na Áustria e uma vez fez o mesmo. Sempre pensei que, se tivesse a oportunidade, faria o mesmo.”
Mais do que um momento de euforia individual, a cena remete a uma tradição de ritos esportivos que atravessam gerações e modalidades. Retirar a camiseta, expor-se ao frio e celebrar na neve carrega dezenas de significados: afirmação física, voto de respeito a antecessores, espetáculo para as câmeras e, não menos importante, a construção de uma imagem nacional em eventos de grande visibilidade. Em uma era em que o esporte é também palco de narrativas simbólicas, a celebração de Karl dialoga com a memória coletiva austríaca e com a teatralidade própria das grandes competições.
Do ponto de vista técnico, a vitória de Karl confirma a longevidade competitiva do atleta. Vencer um evento de alta intensidade como o gigante paralelo exige técnica precisa, controle emocional e capacidade de tomada de risco em duelos eliminatórios. Superar atletas mais jovens em pistas de alta velocidade e com passes curtos reforça a dimensão de experiência e leitura de prova que caracterizam os campeões maturados nas pistas europeias.
No plano social e cultural, o momento reabre a conversa sobre masculinidade e representação no esporte. À primeira vista, a imagem do torso nu na neve pode ser lida como uma exibição tradicional de virilidade; em perspectiva, ela é também um ato performático que mistura humor, reverência e marketing pessoal. Em tempos de transmissão global e exposição constante, cada gesto é imediatamente agregado à narrativa do atleta e ao repertório simbólico de sua nação.
Milano Cortina 2026 segue assim acumulando episódios que, além do resultado, constroem histórias: figuras de herança — como Maier — são convocadas, e novos capítulos são escritos por atletas que reinterpretam essas referências. Para o público e para os analistas, a vitória de Benjamin Karl será lembrada tanto pelo ouro quanto pela fotografia que acompanha a festa, uma imagem que sintetiza tradição, espetáculo e a ambivalência emocional do esporte moderno.
Resultado da final: Benjamin Karl (AUT) campeão do gigante paralelo; vice-campeão Kim Sangkyum (KOR). A celebração nas pistas de Livigno permanece como uma das imagens mais comentadas do dia em Milano Cortina.





















