Imagine-se dirigindo por estradas cercadas por eucaliptos e neblina, com a toalha sobre o ombro e o desejo de saborear a história de uma imersão em águas quentes no coração da Tasmânia. A promessa vinha em prosa sedutora — um “refúgio tranquilo” chamado Weldborough Hot Springs — e transformou o pacato vilarejo de Weldborough num ponto de peregrinação digital. Só havia um pequeno problema: as termas nunca existiram.
O episódio, relatado pela CNN, começa com um artigo publicado no site da agência Tasmania Tours. O texto, gerado por um algoritmo, descrevia as supostas termas como uma das maravilhas naturais da ilha, ideal para “uma fuga pacífica” entre as florestas do nordeste. Em vez de vapor e piscinas termais, quem chegava a Weldborough — uma comunidade de apenas 33 habitantes, com idade média de 57 anos — encontrava o rio Weld gelado, silêncio e o aconchego de um pub local.
Não foi falha humana descuidada: foi criatividade excessiva da Inteligência Artificial. Scott Hennessey, dono da Australian Tours and Cruises, proprietária do portal que hospedou o texto, assumiu o erro à CNN: “Nossa AI errou completamente”. Hennessey explicou que terceirizou a produção de conteúdo para uma empresa que usa IA para manter o site competitivo. Normalmente ele revisa todas as postagens, mas o artigo sobre as termas fantasma escapou à checagem enquanto estava no exterior. “Não somos uma farsa”, disse, lamentando o dano reputacional e o ódio online que sua empresa recebeu. “Somos um casal que tenta fazer a coisa certa, com pessoas reais empregadas.”
Na pequena Weldborough, a figura central dessa comédia trágica é Kristy Probert, proprietária do único ponto de encontro: o Weldborough Hotel. Quando o artigo viralizou, o telefone começou a tocar sem parar. No auge, Kristy recebia até cinco chamadas diárias e via chegar dois ou três grupos de turistas confusos à sua porta. “Estamos numa posição muito remota, então tudo isso parecia muito estranho”, contou ela com um sorriso cansado.
Com resiliência e humor à italiana — e eu, Erica, não deixaria passar sem um suspiro poético — Kristy adotou um bordão que virou lenda local: “Se as encontrarem, eu pago a cerveja”. Uma promessa simples, quase um convite ao Dolce Far Niente, que encapsula a resposta acolhedora e irônica de quem vive o cotidiano à beira do rio gelado onde, na verdade, só sai água quente das torneiras de casa.
Os buscadores de zafiros e estanho que conhecem o Weld sabem bem: para entrar naquele curso d’água é preciso usar roupa estanca, tamanha a friagem. A lição que resta dessa história — tão moderna quanto antiga — é que nem todo o que a rede proclama como paraíso passa pelo crivo do tempo, do tato e do paladar. Andiamo: antes de seguir a trilha dourada de uma descrição online, pergunte, confirme, e, se vier a Weldborough, sente-se no pub, peça uma cerveja e deixe-se encantar pelas texturas do tempo nas paredes.






















