Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Há momentos em que a história decide parar e reconhecer uma trajetória. Na manhã do dia 7 de fevereiro, sobre a parede implacável da Stelvio, em Bormio, esse reconhecimento aconteceu para Dominik Paris. Não foi o ouro — que ficou com o suíço Franjo von Allmen — nem o prateado, conquistado pelo jovem Giovanni Franzoni, mas o bronze que Paris ergueu ao cruzar a linha final tem o peso de uma vitória maior: a sua primeira medalha olímpica.
A pista, vetrificada e implacável como se esperava de uma Olimpíada em solo italiano, não perdoou. Paris largou com o número 12, logo após Franzoni, e sabia que teria de desafiar as leis físicas na temida seção da Carcentina, o trecho que tantas vezes o consagrou na Copa do Mundo. A prova não foi impecável na porção inicial, mas revelou-se uma descida de coração e técnica, especialmente a partir dos Prati di Giumella, onde o veterano imprimiu ritmo até o final. No placar a diferença ficou em +0.50 para o vencedor — margem suficiente para inflamar os cerca de dez mil torcedores presentes.
Ao terminar a prova, Paris falou com sua habitual franqueza: “É uma emoção que não consigo explicar. Procurei esta medalha por cinco Olimpíadas e ganhá-la aqui, na pista que mais amo, fecha um círculo perfeito.” A frase resume não apenas um feito pessoal, mas um desfecho simbólico: o atleta que durante anos foi sinônimo de velocidade na Itália conquista o que faltava em sua coleção.
Com a voz serena, o esquiador admitiu ter perdido alguns centésimos na parte alta, mas ter dado tudo no muro final: “Senti o boato do público, eles me empurraram até além do traçado. Aos 36 anos não é simples competir com esses jovens fenômenos, mas o ‘motor antigo’ ainda rugiu.” A referência ao confronto geracional também ganhou significado no pódio: Franzoni, o surpreendente prata, é apresentado como a promessa — o «trentino» que simboliza o futuro — enquanto Paris se coloca como a resistência do presente.
Mais que um resultado, o bronze de Dominik Paris tem um valor narrativo. Fecha um ciclo pessoal e contribui para a história coletiva do esqui alpino italiano, que vê, em poucas curvas, a renovação e a memória encontrarem-se sobre a mesma neve. Em termos esportivos, trata-se de um capítulo que reequilibra expectativas: a vitória de von Allmen confirma a qualidade internacional da prova; a prata de Franzoni indica um salto geracional; e o bronze de Paris transforma uma carreira já ilustre em um retrato ainda mais completo.
Para a região — para Bormio e para o Trentino-Alto Ádige —, a imagem do veterano que chega ao pódio na pista que o formou tem contornos quase míticos. Não se trata apenas de medalhas, mas de símbolos: estádios e pistas como palcos de identidades locais; atletas como guardiões de memórias compartilhadas. Hoje, a Stelvio acrescenta mais uma página a essa história.
Dominik Paris sai desta Olimpíada com a medalha que faltava e com a certeza de que, mesmo em um esporte que exige juventude e risco, há espaço para trajetórias que se constroem ao longo do tempo — e que, quando confrontadas com a grandeza de uma Olimpíada em casa, assumem um significado que vai além do cronômetro.






















