Bergomi e Baresi carregam a tocha em San Siro: «Nunca senti emoção assim»
Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Uma noite em que o futebol se fez memória coletiva e palco de rito cívico. Giuseppe Bergomi, o eterno capitão neroazzurro, foi um dos protagonistas da cerimônia de abertura em Milão — caminhando com a tocha olímpica ao lado de Franco Baresi, o outro grande capitão da cidade. O gesto, simples na forma, carregou uma intensidade simbólica que o jogador descreveu assim: «Mai provata un’emozione così — nunca senti uma emoção assim».
«Soube disso há cerca de um mês», recorda Bergomi. «O presidente Buonfiglio me telefonou: ‘Gostaríamos de você e do Baresi’. E o Franco aceitou. Foi um reconhecimento enorme». Os dois, curiosamente, partilham um marco: a conquista do Mundial de 1982. À época, Bergomi revela, ele dividia o quarto com Marini, mas passava a maior parte do tempo perto de Franco — «que é irmão de Beppe, e um ponto de referência para mim no Inter».
A caminhada pelo gramado do San Siro — sob os olhos do planeta que acompanhava as Olimpíadas de Inverno com centro nas cidades italianas — foi para Bergomi mais do que um desfile: «Foi uma sensação enorme, nunca senti nada parecido, nem mesmo nas aberturas de Copas do Mundo. O espírito olímpico me envolveu; senti forte o sentido de pertença e o orgulho de representar, ainda que minimamente, o que de melhor o nosso país mostra ao mundo».
O ex-capitão recordou também a presença de autoridades e artistas: «O presidente Mattarella, figuras extraordinárias, artistas maravilhosos… e os rapazes e moças do vôlei à nossa frente esperando para receber o testimone».
Com a tocha nas mãos, Bergomi teve tempo para revisitar duas décadas marcadas por rivalidade e afeto: «Vi o Franco e revivei uma era magnífica: 20 anos de futebol, a nossa casa. Representamos, creio, da melhor forma, inclusive humanamente, uma cidade única no panorama do futebol mundial. É raro encontrar metrópoles com dois clubes de tamanha importância: fascínio, tradição, lenda e troféus sem fim».
O capitão também ponderou sobre a transformação do torcedor e do discurso público: «Os derbys eram sentidos, a rivalidade existia, mas o respeito nunca faltou. Companheiros e adversários cresceram juntos. Hoje, parece que se torce só contra — e isso é, em parte, culpa de quem não soube lidar com a inteligência necessária nas redes sociais, onde se fala de tudo. Antes, o sfottò era outro, mais criativo».
Em tom mais melancólico, Bergomi falou sobre o próprio estádio: «Estava pensando olhando ao redor: por que demolir um monumento assim? Entendo que talvez esteja menos funcional hoje, mas San Siro é memória, tradição, identidade. Um lugar que acumulou cores, batalhas e histórias que pertencem à cidade inteira».
Um episódio leve também foi lembrado: nos bastidores, ao cruzar com Andrea Bocelli, Bergomi ouviu do cantor uma provocação amistosa: «O Inter marca pouco». Comentário que, para Bergomi, entrou no arquivo de lembranças daquela noite incomum — uma mistura de rito público, memória pessoal e espetáculo social.
Mais do que a narrativa de uma caminhada, a presença de Bergomi e Baresi com a tocha olímpica no San Siro foi um momento de síntese. Mostrou como o futebol, mesmo quando não em campo, continua a funcionar como aparelho de memória coletiva: estádios que simbolizam comunidades, capitães que encarnam referências intergeracionais e rituais que reafirmam identidades. Numa Itália que debate modernização e conservação, a imagem dos dois capitães caminhando lado a lado ofereceu uma pausa reflexiva — e, para muitos, uma confirmação do que o esporte representa para a cidade e o país.






















