Em um esporte medido por décimos e resistência, é raro encontrar quem leve para o gelo referências do mundo das ideias. E, no entanto, Davide Ghiotto nunca foi um patinador convencional. Nascido em Zovencedo em 1992, o atleta construiu uma trajetória marcada por horas de treino — frequentemente entre quatro e sete por dia — e por uma curiosidade intelectual que o levou a concluir uma licenciatura em Filosofia em Trento, com uma tese sobre Schopenhauer e a ética do suicídio entregue em 2020.
Há algo de emblemático nessa combinação: um homem que quebra recordes e, ao mesmo tempo, aprofunda-se na reflexão sobre limites e vontade humana. Dono do recorde mundial nos 10.000 metros, estabelecido em Calgary em 2025, e medalhista de bronze olímpico em Pequim 2022, Ghiotto aprendeu a articular um cotidiano de sacrifício — treinos longos, deslocamentos partilhados de automóvel, trabalhos eventuais para custear despesas — com uma disciplina intelectual que poucos atletas conciliam.
O percurso até as lâminas de gelo começou sobre rodas: levado pela avó a uma pista de patinação, ele foi mordido pela paixão do esporte. O salto para o gelo veio aos 18 anos, quando decidiu que, para vislumbrar um futuro olímpico, precisava migrar das patins de rodas para as lâminas. Há uma herança esportiva na família: o pai, Federico, é ex-ciclista, e o irmão mais novo, Manuel, também patina.
Responsável por moldar a parte técnica de Ghiotto está o veterano treinador Maurizio Marchetto (nascido em 1956, de Badia Polesine), figura reconhecida no quadro do esporte italiano e laureado com a Palma d’Oro do CONI, já ligado a gerações que marcaram patinações de velocidade e short track. É essa arquitetura de treino, técnica e experiência que permitiu a Ghiotto consolidar feitos como o recorde em Calgary e a medalha olímpica.
O currículo acadêmico, todavia, não foi um enfeite. O atleta integrou um programa especial para estudantes‑atletas que lhe permitiu conciliar exames e concentrações. Conta ele mesmo que, em um retiro com a equipa, chegou a falhar um treino para poder se formar: “Saltei o treino justamente para me diplomar”, disse numa lembrança que revela a logística minuciosa de sua vida profissional. A defesa da tese teve algo de coletivo: além da família, companheiros de equipa acompanharam a sessão por outra sala.
Ser pai também entrou nesse quadro de escolhas e ausências. O primeiro filho nasceu pouco antes de Pequim 2022; Ghiotto acompanhou o parto por videochamada enquanto estava em viagem para competir. Desde então, a paternidade imprime-se até nas lâminas: ele diz carregar a marca do filho nos patins, como um lembrete da vida que continua fora das pistas.
Hoje, com a confirmação dos Jogos de Milão‑Cortina perto de sua casa, Ghiotto tem a data marcada em vermelho na agenda. Para ele, trata‑se de uma oportunidade singular: a chance de disputar uma Olimpíada em território doméstico, diante de uma plateia que conhece sua história e de cidades que sintetizam a geografia cultural do esporte italiano. “Será a chave de volta da minha carreira”, chegou a afirmar, sem falsear a ambição que acompanha o percurso.
Do ponto de vista cultural, a figura de Ghiotto tem um valor simbólico que excede prêmios e recordes. Ao estudar Filosofia e dialogar com autores como Schopenhauer, ele traz ao centro do espetáculo esportivo uma preocupação com as motivações íntimas, com a dor e com a vontade que impulsionam o gesto atlético. Suas “conversas” com os patins antes das provas — quase um ritual de autoconhecimento — não são meros gestos supersticiosos, mas tentativas de articular um corpo submetido à pressão com uma mente que busca sentido.
Enquanto o gelo não derrete sob a pressão dos cronômetros, a trajetória de Davide Ghiotto lembra que o esporte moderno é, sempre, um cruzamento entre técnica, economia de vida e memórias pessoais. Ele é a síntese de um tempo em que o atleta é também trabalhador, estudante, pai e personagem público. E é essa complexidade que o torna uma figura particularmente interessante quando a Itália volta os olhos para Milão‑Cortina: um palco onde histórias individuais se inscreverão na memória coletiva do país.
Otávio Marchesini
Repórter de Esportes — Espresso Italia






















