Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Na manhã de 7 de fevereiro a Val di Fiemme converteu-se, de novo, em palco de um espetáculo que vai além do simples resultado esportivo. Após a cerimônia de abertura em San Siro, as instalações de Lago di Tesero e Predazzo receberam as primeiras provas da programação, e a presença do público confirmou a dimensão social e identitária desses eventos: quase 9.000 espectadores entre as duas sedes, testemunhas e atores de uma narrativa coletiva.
O centro de esqui de Tesero foi o epicentro do dia com a disputa do skiathlon feminino, que atraiu cerca de 5.000 apaixonados pelo esqui de fundo. O traslado dos torcedores até o local transformou o percurso pedonal em uma avenida de cores, bandeiras e estilos — desde um fã com as cores dos Estados Unidos até grupos austríacos animados, passando por associações suíças que acompanharam Nadine Fändrich com seus tradicionais campanacci.
Em meio aos rostos e aos cantos, surgiram cenas que resumem o encontro entre folclore e logística: um pequeno grupo tentou avançar pelos acessos com um barril de cerveja, gesto que ilustra tanto o espírito festivo quanto os desafios de organizar multidões. A operação de entrada, contudo, funcionou com agilidade; os seis pontos de acesso reduziram filas e a equipe de voluntários mostrou-se eficiente, cordial e protagonista — um lembrete de que a arquitetura social dos eventos esportivos depende tanto de infraestrutura quanto de capital humano.
Os fãs estrangeiros elogiaram a acolhida e a relação custo-benefício: “A organização é boa — disseram — e os preços de ingressos e alojamento estão em linha com outros grandes eventos internacionais”. Para alguns, a surpresa veio na proximidade entre público e competidoras. Torcedores finlandeses, presentes especialmente para apoiar Kerttu Niskanen, destacaram a intimidade com que se acompanha a prova, algo que em edições recentes das Olimpíadas nem sempre foi possível.
No plano competitivo, os aplausos seguiram a sequência esperada: o primeiro grande clamor na largada, depois o acompanhamento atento ao desenrolar da prova e, por fim, a explosão final na cerimônia de pódio celebrando a vitória de Karlsson. Esses momentos são emblemáticos: não apenas por coroarem desempenhos, mas por tecerem memórias — e por reafirmarem o papel das arenas locais como espaços de construção de narrativa coletiva.
Do ponto de vista econômico e cultural, a presença massiva de torcedores estrangeiros confirma a capacidade do Trentino de articular turismo, tradição e evento esportivo. A permanência de grupos — alguns declararam que ficarão em Val di Fiemme por toda a duração dos Jogos — reforça a ideia de que essas competições funcionam como circuitos de experiência, capazes de produzir impacto prolongado sobre localidades e serviços.
Se a prova inaugural trouxe entusiasmo, ela também ampliou a compreensão sobre o esporte moderno: não é apenas competição, é encontro social, espetáculo, economia e memória. A combinação entre organização eficiente, voluntariado dedicado e um público internacionalmente diverso conferiu à primeira jornada um caráter promissor para os próximos dias em Tesero e Predazzo.
Val di Fiemme abriu suas portas com firmeza e hospitalidade; resta agora acompanhar como esses fatores se traduzirão em legado para a região — e como cada vitória ou queda será lida pelas comunidades que se reconhecem nesses estádios naturais.






















