Por Otávio Marchesini — Espresso Italia
A queda de Lindsey Vonn no início da descida livre em Cortina reacendeu uma pergunta antiga sobre o sentido e os limites do risco nas competições de alto nível: até que ponto uma atleta lesionada pode ou deve competir nas Olimpíadas?
O caso é sintomático. Vonn apresentou-se no portão de largada depois de, segundo relatos, ter sofrido a ruptura do ligamento cruzado do joelho esquerdo em Crans-Montana pouco mais de uma semana antes dos Jogos. Em circunstâncias normais, uma lesão desse porte impõe protocolos de reabilitação e, muitas vezes, cirurgia; em um calendário olímpico, pressa e expectativa transformam a medicina esportiva em cálculo político e simbólico.
Na explicação mais direta, ou, se preferirmos, institucional, o doutor Andrea Panzeri, médico da Federazione Italiana Sci (FISI), resume assim a prática corrente: não existe um protocolo olímpico que obrigue ou impeça a participação. “A discrição é, de fato, do atleta”, diz Panzeri. Exames clínicos e de imagem são realizados, há um confronto com a Comissão Médica da federação, e, a partir daí, recomendações podem ser feitas. Mas a decisão final, quando se trata de uma campeã do calibre de Vonn, cabe em última instância à própria atleta.
É importante frisar que essa situação não é inédita. O caso de Sofia Goggia é exemplificativo: há quatro anos, a esquiadora bergamasca sofreu uma distensão no joelho esquerdo com lesão parcial do cruzado e uma microfratura do perónio 23 dias antes dos Jogos de Pequim. Ainda assim, assumiu o risco e conquistou a medalha de prata na descida livre — um feito que entrou para a memória coletiva do esporte italiano e que ilustra a ambivalência entre heroísmo e vulnerabilidade física.
Outro exemplo presente nestes Jogos é o de Flora Tabanelli, do freestyle: lesionou o ligamento cruzado anterior do joelho direito em novembro, optou por não se submeter a cirurgia e seguirá na competição. São escolhas que interpelam não só a medicina, mas também a narrativa pública sobre coragem, responsabilidade e espetáculo.
No caso de Vonn, os exames previstos foram feitos e os laudos entregues à sua equipa. Segundo Panzeri, coube à esquiadora insistir em descer. O resultado foi uma queda pesada e a sensação, para observadores mais críticos, de que a corrida contra o tempo se tornou excessiva.
Como analista que vê o esporte como espelho de processos sociais, cabe sublinhar que essas decisões transcendem o corpo individual. Elas envolvem federações, patrocinadores, expectativas nacionais e a própria lógica das competições, que transforma eventos breves em oportunidades irrepetíveis. A ausência de um protocolo único às Olimpíadas deixa a margem de decisão ampla, e aí residem tanto a glória quanto o risco.
Em última instância, a pergunta permanece aberta: qual é o equilíbrio aceitável entre a autonomia do atleta e a responsabilidade coletiva de minimizar danos? A resposta exige não apenas regulamentos mais claros, se possível, mas uma reflexão sobre os valores que queremos preservar quando elevamos a performance a ideal supremo.
8 de fevereiro de 2026




















