Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em um dia que mistura alívio e frustração para o snowboard italiano, Lucia Dalmasso, 28 anos e natural de Agordo, escreveu um capítulo de resistência esportiva ao conquistar o bronze no paralelo disputado no Ski Park de Livigno. A conquista, arrancada no último momento contra a conterrânea Elisa Caffont, acabou sendo a única medalha do snowboard italiano nesta prova.
O triunfo de Lucia Dalmasso tem sabor de narrativa construída sobre uma lesão que poderia ter encerrado sua trajetória: uma dupla ruptura de ligamentos sofrida no Stelvio a obrigou a abandonar a carreira no esqui e a encontrar na tábua uma nova forma de competir. Transformar uma imobilidade forçada em oportunidade exige uma dimensão psicológica que transcende a estatística — e foi essa conversão que a trouxe ao pódio.
No parterre de Livigno, Dalmasso chorou, saltou e comemorou com intensidade contida — um rito de passagem pessoal que, ao mesmo tempo, deixa clara a descontinuidade de um projeto coletivo que havia sido apelidado de “Dream Team”. Do lado masculino, a equipe que mais inspirava expectativas sofreu uma queda de rendimento incomum: Maurizio Bormolini, o local que competia praticamente em casa depois de batizar a filha Vittoria poucos dias antes; Roland Fischnaller, aos 45 anos, o veterano que buscava um desfecho olímpico memorável; além de Aaron March e Mirko Felicetti. Todos vinham em evidência por uma sequência de pódios na Copa do Mundo — e ainda assim não conseguiram traduzir esse domínio em medalha aqui.
O contraste entre projetos individuais bem-sucedidos ao longo da temporada e a falha coletiva nos Jogos ressalta, uma vez mais, a complexidade das competições olímpicas: não basta ter resultados prévios, é preciso que as variáveis do dia — condições da pista, decisões táticas, nervosismo — confluam em favor do atleta. A vitória de Lucia ganha ainda mais significado nesse quadro: não é apenas um metal; é a presença de uma atleta que soube reconstruir seu percurso.
Há também uma leitura histórica para o resultado: desde a prata de Thomas Prugger em Nagano, há 28 anos, o snowboard paralelo italiano não encontrava um eco olímpico tão relevante. A medalha de Dalmasso interrompe um jejum em termos de visibilidade e entrega simbólica, mesmo que o saldo do dia deixe um amargor por aquilo que a equipe esperava alcançar coletivamente.
Na perspectiva do esporte como espelho social — e eu procuro sempre essa lente —, a trajetória de Dalmasso sintetiza elementos recorrentes do esporte italiano: pequenas comunidades de montanha produzindo talentos, trajetórias forjadas entre adversidade e recomeço, e uma relação íntima entre identidade regional e representação nacional. O bronze em Livigno é, portanto, uma história de resistência pessoal que se conecta a memórias mais amplas do país nas pistas de neve.
Enquanto se desenha o balanço final desta participação, fica a imagem de uma atleta que converteu dor em possibilidade e, ao fazer isso, restituiu ao público uma forma de esperança — ainda que insuficiente para apagar o sentimento de oportunidade perdida de um time que, aos olhos das expectativas, parecia destinado a mais.
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