Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
No fim de uma tarde que misturou medo, tensão e a inevitável carga simbólica de uma Olimpíada em solo italiano, Sofia Goggia acrescentou mais um capítulo à sua biografia esportiva: o bronze na descida de Cortina. Não era a cor que desejava — a voz que já encantou multidões preferia o ouro —, mas o resultado alimenta uma narrativa diferente, menos dramática e mais esclarecedora sobre a evolução de uma campeã que aprendeu a equilibrar impulsos e cálculo.
Quem acompanha a carreira de Sofia Goggia sabe que suas vitórias sempre foram leituras do que a atleta representa para a Itália: alguém que traduz a resistência regional, a vontade de superar lesões e a responsabilidade simbólica de competir quando a expectativa pública ultrapassa os limites do esporte. Quatro anos atrás, na China, ela subiu ao pódio vinte e três dias depois de um grave problema físico para conquistar a prata. Hoje, com a Olimpíada praticamente em casa e a pressão multiplicada por vozes e olhares, voltou a provar que é capaz de reagir sob as circunstâncias mais complexas.
O dia, porém, foi marcado por um momento sombrio: a queda de Lindsey Vonn, que exigiu quase vinte minutos de interrupção para socorro. O impacto emocional sobre a prova foi imediato. As pistas mentais das competidoras sofreram uma cisão entre o instante anterior e o que veio depois do acidente. Goggia descreveu essa divisão com a franqueza de quem entende o esporte em sua dimensão humana: “foi como se a prova tivesse um antes e um depois”.
Mesmo assim, a italiana desceu pela Olympica e entrou para o livro dos recordes: tornou-se a única atleta com três medalhas olímpicas na descida — um feito que não deve ser reduzido apenas à coloração metálica do pódio. “Não é do tom que eu queria e isso me deixa um pouco triste”, disse ela, mas logo acrescentou que se tratava de algo “único e raro”, e que assinaria sem hesitar pela medalha dadas as circunstâncias.
Na dimensão esportiva imediata, a corrida foi de contrastes. Do lado norte-americano, Breezy Johnson, treinada em Jackson Hole, assinou uma vitória que, em termos atléticos, aparece como um ponto alto tardio: a atleta que já tinha vencido a descida do Mundial em Saalbach conquistou agora sua primeira vitória olímpica. Johnson, no entanto, traz no histórico uma passagem complicada pelos controles antidoping — faltas a testes entre 2022 e 2023 que resultaram em uma suspensão de 14 meses — um dado que o público e a mídia não ignoraram ao comentar a performance.
O ouro ficou com a jovem sensacional Emma Aicher, 22 anos e 175 centímetros, criada entre a Suécia (terra da mãe) e a tradição esportiva da Alemanha adotada pelo pai. Seu traço mais notável é a versatilidade: transita da alta velocidade para o slalom com naturalidade e já acumula pódios em diferentes disciplinas nesta temporada. Aicher representa uma nova geração que chega ao topo com uma base técnica ampla — e faz sentido pensar que a descida em Cortina marca um deslocamento geracional no esqui feminino.
Para Sofia, a prova teve acertos e erros. Ela própria reconheceu um deslize no schuss que comprometeu suas chances reais de lutar pela vitória. Ainda assim, destacou a solidez mental demonstrada: “Fiz uma ótima prova, de coração e de coragem”, afirmou, valorizando a gestão emocional e tática que hoje prefere ao risco absoluto que caracterizou fases anteriores de sua carreira. Em outras palavras: menos “all-in”, mais cálculo.
Há detalhes humanos que ajudam a contar a cena. A mãe, Giuliana, não subiu às Tofane: assistiu à filha de longe, do sofá em Cortina, um quadro íntimo em meio à grande encenação pública do espetáculo olímpico. Segundo relatos, Sofia dispensou acompanhamento psicológico formal antes da prova — um ponto que gerou debate sobre estratégias de controle emocional usadas por atletas de alto rendimento. Também houve um pequeno e simpático encontro com Alberto Tomba, um gesto que celebrou a conexão entre gerações do esqui italiano — o “siparietto” que aqueceu a narrativa local sem transformar o resultado em folclore.
O episódio do capacete que “ficou quente como uma frigideira” e a pista que parecia mergulhar na sombra após uma grande curva são imagens que ajudam a entender o cenário técnico da prova. Goggia lembrou também das longas esperas: já havia esperado duas horas pela retomada após a reconfirmação da pista na manhã do dia da corrida, e novamente sofreu com a interrupção após a queda de Vonn. Essas variáveis afetaram condições físicas e psicológicas, e tornaram o bronze um resultado que dialoga com resistência e prudência.
Mais do que um metal, esta medalha de Sofia Goggia é a confirmação de uma trajetória que aprende a conviver com limites e expectativas. É um bronze que fala de maturidade esportiva e de escolhas: recusar o all-in, planejar recuperações, administrar o medo e aceitar o erro como parte de uma carreira longa. Em termos culturais, é também uma nota sobre como a Itália encara seus heróis — não só como vencedores absolutos, mas como figuras que carregam memórias coletivas, feridas e recomeços.
Se há uma lição que fica em Cortina, é que a grandeza esportiva também se mede pela capacidade de reinventar estratégias diante do infortúnio e do calor público. A medalha de Sofia não apaga os desejos de outro tom no peito da atleta e dos torcedores, mas oferece um retrato honesto do presente: uma campeã que não se deixa definir por um único gesto, mas por uma soma de decisões que, quando contadas, explicam porque o esporte italiano ainda encontra nela uma figura central e simbólica.
Nos dias que virão, a discussão se ampliará — sobre gerações que se alternam, sobre protocolos de segurança, sobre o suporte psicológico aos atletas e sobre a narrativa que transformamos em memória coletiva. Aqui, porém, permanece a imagem de Sofia Goggia descendo a Olympica, com o bronze no peito e a serenidade de quem sabe que resistência e razão podem coexistir na mesma curva.





















