Por Otávio Marchesini, Espresso Italia.
No gelo do Milano Ice Park, a imagem que ficará não é apenas a do pódio: é a de um jovem que transforma um resultado esportivo em memória coletiva. Riccardo Lorello conquistou o bronze olímpico na patinação de velocidade e fez questão de dedicar a medalha aos avós — figuras centrais numa trajetória que mistura sacrifício familiar, circulação territorial e escolhas de formação.
A cena após a prova é emblemática da relação íntima entre atleta e comunidade: aos braços do pai, Adriano — ex-campeão e técnico que acompanhou cada etapa do percurso —, Riccardo celebrou como quem confirma um destino construído em conjunto. No público, familiares com camisetas estampadas com sua foto e moradores da sua cidade de adoção, Rho, aplaudiam uma conquista que transcende o resultado esportivo e se transforma em símbolo local.
A história de Lorello não é de uma ascensão repentina, mas de uma sucessão de deslocamentos e investimentos anuentes. Nascido e crescido entre Nova Milanese e Milão, ele começou sobre rollers e só depois migrou para o gelo, integrando o Skating Rho como referência técnico-esportiva. Treinos regulares em Cinisello Balsamo e constantes idas à pista consolidaram a base técnica que o levaria às competições internacionais nas categorias de base.
O papel dos avós, hoje perto dos noventa anos, é um elemento que merece atenção sociológica: foram eles que, rotineiramente, buscavam o neto na escola Pietro Nenni, em Milão, e o acompanhavam até Nova Milanese para que pudesse se encontrar com o pai e seguir para os treinos. Essa rede de cuidados desafia a ideia de que a formação esportiva é exclusivamente uma decisão individual ou meramente econômica — é também doméstica e intergeracional.
Aos 17 anos, a opção de mudar-se para o Trentino para intensificar os treinamentos determinou uma nova fase: longe da família, com os 18 anos vividos à distância, Riccardo equilibrava os estudos — iniciou o ensino médio no Ettore Conti, em Milão — e os treinos. Posteriormente, adotou a dual career ao se matricular na Universidade Bicocca em Ciências dos Serviços Jurídicos, buscando compatibilizar formação acadêmica e atividade de alto rendimento por meio de estudos online.
A família ampliada — duas irmãs, Sofia e Giorgia, filhas dos atuais companheiros dos pais — foi parte do esforço coletivo. O pai Adriano recorda os anos de sacrifício: fins de semana convertidos em deslocamentos para as pistas de Trento e Bolzano, logística e renúncias que muitos projetos esportivos exigem. A mãe, Giovanna Renesto, destacou o crescendo de emoções da prova e a qualidade da apresentação do filho.
Além do valor esportivo, a trajetória de Riccardo Lorello ilustra temas mais amplos: a formação de atletas em regiões periféricas da grande metrópole, o papel das cidades médias — como Rho — na preservação e promoção de práticas esportivas, e a importância das redes familiares na produção de talento. A medalha é, portanto, tanto um reconhecimento técnico quanto um artefato social que documenta laços, mobilidades e escolhas.
Para o jovem atleta, o bronze não encerra uma narrativa; abre outras: a consolidação no circuito internacional, a continuidade dos estudos e a responsabilidade simbólica de representar uma comunidade que o acompanhou desde os rollers até o gelo olímpico. É essa densidade — entre o individual e o coletivo — que torna a conquista de Lorello relevante para além da crônica esportiva.





















