Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Com o rosto ainda marcado por noites curtas e um sorriso que traduz a dimensão da conquista, Francesca Lollobrigida falou com calma sobre o dia em que fechou 7,5 voltas de autoridade e se tornou campeã olímpica dos 3000 metros do speed skating em Milão-Cortina. Aos 35 anos, ela não apenas subiu ao topo do pódio: estabeleceu novo recorde olímpico de 3’54″28 e devolveu ao público italiano um momento de identificação e emoção.
“Fui dormir com uma dor de pernas enorme, não preguei o olho”, admitiu. Na madrugada, uma visita surpresa do controle antidoping bateu à porta. Mesmo assim, entre pressoterapia e um treino em Rho que ela define como “meio desastre”, tudo conspirou para que o sábado virasse “um dia perfeito”.
É relevante notar a composição deste triunfo. Não se trata de um golpe de sorte; é resultado de resistência frente a uma temporada marcada por sequelas de um vírus e por resultados irregulares até a véspera dos Jogos. “Melhor assim. Se eu fosse a grande favorita, não teria vivido tudo com tanta leveza”, disse Francesca, que entrou na pista cantando “volare-o-o”, sorrindo e sem acompanhar os cronômetros rivais — postura que revela uma atleta que conciliou profissionalismo com prazer competitivo.
O episódio doméstico também teve papel simbólico. O pai, Maurizio, ex-patinador em carreira de rodas e quem a colocou nas lâminas longas, conseguiu entrar no Vila Olímpica com um bolo para que a filha soprar as velas. O aniversariante, no entanto, é outro: o pequeno Tommaso, que fez do pós-competição um momento de festa e, segundo a mãe, protagonizou as entrevistas com seu comportamento expansivo. “É um menin o frenético; ele fez as entrevistas por mim”, conta, lembrando que o garoto, aos três anos, já é “cidadão do mundo”: confortável em aeroportos, hotéis e até nos braços das atletas coreanas, holandesas e canadenses.
A maternidade permeia a narrativa. Lollobrigida amamentou até 18 meses e, para preservar uma rotina infantil mais normal, decidiu mandar o filho para a creche e devolvê-lo a Ladispoli com o marido e a babysitter durante a reta final da preparação — ela não queria privá-lo do carnaval com os amiguinhos. “Quero que ele tenha uma vida normal”, afirma, alinhando escolhas pessoais e ambição esportiva.
Mais do que celebrar um ouro em casa, a atleta deixou uma mensagem estratégica sobre o futuro da modalidade. “Este ouro muda a mim, não minha vida”, pondera. Ao mesmo tempo, serve de vitrine para a patinação de velocidade italiana — um esporte que enfrenta limitações estruturais: instalações concentradas em Baselga e Collalbo, um reduzido número de praticantes e um frágil ecossistema de base. A expectativa de Francesca é clara e austera: aproveitar a visibilidade da Olimpíada para inspirar meninas e ampliar o interesse pelo esporte.
Ela também confirmou que, poucos dias depois, terá mais um desafio: os 5000 metros, prova marcada para quinta-feira, numa agenda técnica que mistura dever e celebração. E, sobre a presença na televisão, quando questionada se se veria nos estúdios, foi direta: “Me gustaría”, deixando em aberto um possível papel público que se combine com sua imagem de atleta-mãe e embaixadora disciplinada.
O ouro de Francesca Lollobrigida é, assim, um fenômeno que ultrapassa a volta rápida: é um retrato do esporte italiano contemporâneo, entre memórias familiares, decisões íntimas e a responsabilidade de transformar atenção momentânea em legado sustentado.





















