Por Chiara Lombardi — Em 10 de fevereiro de 1966 estreava nos cinemas italianos Signore & Signori, o décimo quarto longa-metragem de Pietro Germi. Dividido em três episódios, o filme é um duelo ácido entre forma e moralidade: um retrato impiedoso do perbenismo provincial que funciona como verdadeiro espelho de uma nação em mutação.
Filho de um diretor no auge da sua maturidade artística, Signore & Signori consolidou a assinatura de Germi — a junção entre rigor ético e sátira feroz — ao passear entre gêneros com uma veia grotesca que desmonta hipocrisias públicas e privadas. Alguns meses após a estreia, a obra foi premiada com a Palma d’Ouro em Cannes (ex aequo com Un homme, une femme de Claude Lelouch), selando seu lugar como um dos pontos altos do cinema italiano daquele tempo.
Embora filmado visivelmente em Treviso, a narrativa se passa numa província do Vêneto não nomeada, indicada apenas por uma cidade fictícia — Rezega — e placas automotivas RZ. Nesse microcosmo de aparente decoro, Germi reúne a média-alta burguesia local: um corpo social que, sob a superfície de respeitabilidade, cultiva uma teia subterrânea de infidelidades e compromissos morais degradantes.
O primeiro episódio acompanha o sedutor Toni Gasparini (interpretado por Alberto Lionello), que confessa ao médico amigo, Dr. Castellan (Gigi Ballista), uma impotência que, na verdade, é instrumento para afastar suspeitas enquanto tenta conquistar a brilhante jovem Noemi (Beba Lončar). A confidência — espalhada com uma crueldade superficial — desencadeia uma série de mal-entendidos e revela como a curiosidade social e o medo do escândalo corroem relações.
No segundo episódio, o humilde bancário Osvaldo Bisigato (interpretado por Gastone Moschin) se apaixona por Milena Zulian (Virna Lisi), a bonita balconista de um café local. A amante e o adultério são tolerados silenciosamente pela comunidade; a separação, todavia, ainda é um tabu inaceitável. A partir daí, Germi destrincha a lógica do julgamento coletivo: da influente Ippolita (Olga Villi) ao pároco e ao comandante dos carabinieri, todos desempenham papéis nesse teatro de máscaras.
O longa é o último mergulho definitivo de Germi numa causticidade que o cinema italiano acabaria por abandonar gradualmente. É difícil não ler Signore & Signori como um roteiro oculto da sociedade — uma semiótica do viral antes da era das redes — que expõe os mecanismos de conservação social e a hipocrisia que sustenta a ordem. Filmado com pulso cirúrgico, o filme usa a comédia e o grotesco como bisturi ideológico: corta, separa e mostra o tecido social em sua nudez desconfortável.
Hoje, seis décadas depois, o filme mantém sua potência crítica. Ver Signore & Signori é reencontrar um espelho — nem sempre agradável — onde reconhecemos padrões repetidos: a gestão da aparência em nome do bem-estar coletivo, as alianças silenciosas que mantêm sistemas de poder e o preço psicológico do conformismo. É um convite para pensar por que certos moralismos persistem e como o cinema popular pode se transformar em ferramenta de diagnóstico cultural.
Como observadora do nosso zeitgeist, concluo que a relevância do filme não é apenas histórica: é um reframe que nos obriga a questionar o roteiro cotidiano que aceitamos. Em sua crueza, Germi nos lembra que a vida em província pode ser, ao mesmo tempo, um quadro de serenidade e um cenário de transformação — e que o espelho do cinema nem sempre nos devolve uma imagem confortável, mas quase sempre necessária.





















