Por Marco Severini — Em um movimento que reverbera além das pistas de gelo, o presidente Donald Trump criticou publicamente o esquiador olímpico americano Hunter Hess, classificando-o como “um verdadeiro perdedor” após declarações do atleta sobre as complexidades de representar os Estados Unidos nas Olimpíadas de Milano Cortina.
Na sua publicação na plataforma Truth Social, o ex-presidente foi incisivo: se Hess considera difícil representar o país, “não deveria ter tentado entrar na equipe”, escreveu, acrescentando que “é muito difícil torcer por alguém assim” e concluiu com seu bordão político, “RENDAMOS A AMÉRICA DE NOVO GRANDE!”. O tom duro do comentário insere uma peça política no tabuleiro esportivo, transformando uma afirmação pessoal em questão de representação nacional.
No centro da controvérsia estão as próprias palavras de Hess, proferidas numa coletiva de imprensa em que admitiu sentir “sentimentos contrastantes” ao vestir a bandeira americana nos Jogos de Inverno: “Penso que é difícil, porque estão acontecendo muitas coisas que não me agradam”, disse o atleta originário do Oregon. Hess foi enfático ao esclarecer que carregar a bandeira dos EUA “não significa que eu represente tudo o que acontece no país”.
Do mesmo evento, o colega de equipe Chris Lillis trouxe à tona a dor relacionada às recentes operações governamentais sobre imigração. Lillis afirmou sentir o “coração partido” e defendeu um princípio básico: “Como país, devemos nos concentrar no respeito aos direitos de todos e assegurar que tratemos nossos cidadãos e quaisquer pessoas com amor e respeito.”
As observações dos atletas ocorrem num momento de crescente tensão interna nos EUA em torno das políticas migratórias adotadas pela administração Trump. Nos últimos dias, o governo anunciou que prendeu mais de 4.000 imigrantes acusados de diversos crimes durante ações conduzidas em Minneapolis, enquadradas na chamada Operação Metro. A operação, conduzida por agentes do ICE, ganhou contornos ainda mais sensíveis após a notícia da morte de dois cidadãos americanos durante ações das forças de imigração na mesma cidade.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento que redesenha fronteiras simbólicas: o esporte, tradicionalmente visto como palco de união nacional, transforma-se em peça num tabuleiro maior, onde decisões de política interna reverberam sobre a legitimidade simbólica dos que representam a nação. A fala de Trump procura reaplicar pressões políticas sobre figuras públicas que exprimem discordância — uma jogada que visa fortalecer um eixo de influência doméstico, mas que arrisca corroer os alicerces de coesão que eventos internacionais procuram construir.
Para observadores da diplomacia e da estabilidade interna, a situação sinaliza um endurecimento retórico que pode provocar reações em cadeia: atletas como Hess e Lillis exercem um papel civil que transcende resultados esportivos; suas afirmações ganham eco numa sociedade já polarizada pelas políticas de imigração. A partida, portanto, não se limita à pista de esqui — é um movimento decisivo no tabuleiro político-americano, com implicações para a percepção internacional dos Estados Unidos.
Seguiremos acompanhando as repercussões, incluindo respostas oficiais, eventuais retratações e o impacto dessas tensões sobre a delegação americana em Milano Cortina. Em termos práticos, a diplomacia simbólica do esporte voltou a evidenciar como a tectônica de poder doméstica pode reconfigurar paisagens de prestígio e representação no exterior.





















