Por Marco Severini — Em um movimento que altera as linhas de força no cenário asiático, a coalizão ultraconservadora liderada pela primeira-ministra Sanae Takaichi obteve uma vitória esmagadora nas eleições para a Câmara dos Representantes do Japão. Projeções eleitorais, antes da divulgação oficial dos resultados, atribuem ao Partido Liberal Democrático (LDP) e ao seu aliado, o Partido da Inovação (Ishin), uma maioria absoluta: pelo menos 310 dos 465 assentos em disputa.
Esse patamar configura uma verdadeira super maioria que, se confirmada, permitirá à coalizão contornar eventuais bloqueios da Câmara Alta, da qual havia perdido a maioridade em julho do ano passado. É o melhor desempenho do LDP desde 2017, quando o partido era liderado por Shinzo Abe, mentor político de Takaichi e figura cuja morte em 2022 ainda reverbera na política japonesa.
A derrota da oposição é igualmente profunda. A recém-formada Aliança Reformista, que agrega o principal partido de oposição, o Partido Democrático Constitucional (CDP), e o ex-parceiro do LDP, o Komeito, corre o risco de perder mais de dois terços de seus mandatos. Paralelamente, o partido anti-imigração Sanseito registra um avanço, projetado entre 5 e 14 cadeiras, ante as apenas duas atuais, segundo a emissora NHK.
Takaichi, que se tornou a primeira mulher a assumir o cargo de primeiro-ministro no outono passado, convocou eleições antecipadas com a promessa de renunciar caso não assegurasse uma maioria estável. A estratégia revelou-se, ao menos por ora, vitoriosa. No discurso público e nas propostas de governo, a premiê enfatizou uma política fiscal “responsável” e a construção de uma economia “forte e resiliente” — mensagens destinadas a reassurar mercados após anúncios iniciais que provocaram volatilidade e alta nos rendimentos da dívida japonesa.
O plano econômico de Takaichi inclui um pacote de estímulo superior a 110 bilhões de euros e a isenção de produtos alimentares do imposto sobre consumo de 8%, manobra pensada para mitigar o impacto do aumento do custo de vida sobre as famílias. A inflação permaneceu acima de 2% por quase três anos, uma preocupação que figura no centro do debate público.
Com 64 anos e notória admiração por figuras do conservadorismo europeu, como Margaret Thatcher, Takaichi adotou tom firme sobre imigração, afirmando que os critérios de entrada no Japão se tornaram mais rígidos, “de modo que terroristas, mas também espiões industriais, não podem entrar facilmente”. Essa retórica sinaliza um endurecimento que poderá redesenhar, ainda que sutilmente, as rotas laborais e as fronteiras econômicas do país.
Na arena internacional, a vitória foi saudada por aliados. Entre as mensagens públicas, destacou-se a felicitação da primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, que ressaltou a amizade e o partenariado estratégico entre as nações.
Do ponto de vista geopolítico, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro: uma coalizão fortalecida na Câmara Baixa amplia a margem de manobra para reformas constitucionais e políticas de segurança, enquanto fragiliza a oposição parlamentar. Os próximos passos governamentais serão cruciais para a estabilidade econômica do Japão e para o equilíbrio regional — peças que, em meu juízo, exigirão cautela, formação de alianças pontuais e um cálculo estratégico fino, à maneira de um lance de xadrez que antecipa vários movimentos do oponente.





















