Por Otávio Marchesini, Espresso Italia.
Em uma tarde que mistura resistência física e sentido simbólico, Lucia Dalmasso, nascida em Feltre em 28 de maio de 1997, subiu ao pódio e garantiu a medalha de bronze para o Team Italia no slalom gigante paralelo de Milano Cortina. A vitória no duelo interno com Elisa Caffont — selada por apenas 11 centésimos — tem contornos que vão além do resultado: é a confirmação de uma trajetória de reinvenção dentro dos esportes de neve.
O pódio em Livigno soma-se como a quinta medalha italiana nestes Jogos (após Franzoni, Paris, Lollobrigida e Goggia) e acontece em um momento em que o snowboard técnico, especialmente o paralelo gigante, exige precisão, nervo e leitura tática da pista. Na big final, o ouro ficou com a checa Maderova e a prata com a austríaca Payer — a prova, portanto, continua a refletir a forte competição europeia entre nações com tradição em neve.
A história de Lucia Dalmasso merece atenção pelo processo mais do que pelo instante. Formada como promessa do esquí alpino, integrada ao grupo Futur Fisi, teve seus planos interrompidos por uma lesão grave nos ligamentos cruzados de ambas as pernas. É um tipo de ruptura que, além de física, costuma reconfigurar trajetórias. Foi nesse ponto que o trajeto pessoal encontrou uma nova direção: o snowboard.
Com o apoio da mãe, Elena, e do pai, Pietro, Dalmasso recusou o fim da carreira. A relação com a prancha não foi apenas adaptação técnica, mas uma reabertura profissional e afetiva ao esporte — um recomeço que se concretiza em resultados: o primeiro pódio em Copa do Mundo veio em janeiro de 2023, com o segundo lugar no PGS de Blue Mountain; em janeiro de 2024 chegou a vitória em Scuol; e, ainda em 2023, ela esteve muito próxima do pódio mundial em Bakuriani, terminando na quarta posição.
Esses marcos não são apenas estatísticas. São sinais de um processo de maturação atlética que combina resiliência física, inteligência de prova e reconstrução identitária. O slalom gigante paralelo exige tomadas de decisão em frações de segundo, e a rimonta final de Dalmasso na grande final mostrou que ela aprendeu a transformar adversidade em vantagem competitiva.
Fora da pista, a atleta cultiva leituras e o desenho de mapas para viagens futuras — pequenos gestos que ajudam a manter perspectiva longe do estresse competitivo. Em Milano Cortina, essa disciplina da vida teve seu coroamento: uma medalha olímpica que reforça não apenas a qualidade técnica da atleta, mas a narrativa de um esporte como espaço de reinvenção.
Como analista atento às estruturas do esporte, vejo em Lucia Dalmasso um exemplo contemporâneo do que o esporte italiano pode oferecer quando alia formação, rede de apoio familiar e capacidade de reorientação profissional após a lesão. A medalha é uma leitura pública dessa interseção — onde memória individual e política esportiva nacional se encontram.





















