As Olimpíadas Milano‑Cortina 2026 entraram no seu cerne competitivo com performances e medalhas que já compõem capítulos importantes da memória esportiva italiana. Mas, como em todo grande espetáculo coletivo, a cerimônia de abertura também deixou marcas menos nobres: uma sequência de equívocos na narração televisiva que assumiu contornos públicos e políticos. No centro da controvérsia esteve Paolo Petrecca, diretor da RaiSport, cujo comentário em direto passou por erros de identificação que geraram meme, ironia e protestos institucionais.
Entre os episódios mais comentados, a atriz Matilda De Angelis foi anunciada como “Mariah Carey” enquanto a ex‑nadadora e presidente do COI, Kirsty Coventry, teria sido equivocadamente identificada em termos pessoais que remontam a trocas igualmente absurdas. Mais significativo, porém, foi o caso dos atletas de voleibol: dos seis ponteiros e medalhistas que participavam como tedeofori, Petrecca reconheceu publicamente apenas Paola Egonu, deixando de lado nomes como Carlotta Cambi, Anna Danesi, Simone Anzani, Simone Giannelli e Luca Porro — campeões olímpicos e mundiais cujo histórico esportivo não poderia ser reduzido a desconhecimento.
A resposta dos diretamente atingidos foi, em grande parte, marcada pela ironia. Num post no Instagram de Simone Anzani, Simone Giannelli comentou com duas palavras que viralizaram: “Chi sei tu?” — seguido de emojis de riso e constrangimento. Anzani respondeu na mesma linha: “Non lo so e tu?”. A atriz Matilda De Angelis adotou o humor como antídoto, publicando “Please, call me Mariah” e chegando a brincar sobre repartir direitos autorais de canções natalinas — uma forma elegante de reduzir a tensão sem negar o incômodo do episódio.
Mas o riso público não amortecesse as consequências institucionais. O sindicato Usigrai denunciou a telecronaca como embaraçosa, argumentando que a sequência de erros prejudicou a credibilidade da emissora pública. Parlamentares e membros da comissão de vigilância da Rai também manifestaram preocupação sobre o impacto da cobertura na imagem do serviço público, transformando uma gafe jornalística em tema de debate sobre responsabilidade editorial.
Como analista que observa o esporte em sua dimensão social e histórica, é preciso sublinhar duas lições que emergem desse episódio. A primeira é prática: em eventos de alta visibilidade, a precisão na identificação de protagonistas não é mero detalhe técnico, mas parte integrante do tratamento digno dos agentes esportivos e culturais. A segunda é simbólica: a cerimônia inaugural é um rito de representação coletiva — confundir identidades em plena transmissão equivale a um lapso na construção pública da memória esportiva.
Ao optar pela ironia nas redes, atletas e artistas reconheceram a força da narrativa digital contemporânea: memes e comentários curtos podem virar lente crítica instantânea, mas também instrumento de resiliência. Resta à Rai (e às suas instâncias de gestão) responder com medidas claras que restituam confiança ao público, garantindo que o espetáculo — e os seus protagonistas — sejam tratados com a precisão institucional que merecem.






















