Por Chiara Lombardi — Em um diálogo que parece um ensaio entre palco e memória, Riccardo Muti prepara-se para dirigir Macbeth de Verdi no Teatro Regio de Turim, no dia 24, com a direção cênica assinada por sua filha, Chiara. Os protagonistas são Luca Micheletti e Lidia Fridman. O maestro senta-se ao piano enquanto comenta o peso do destino que atravessa a ópera — uma reflexão que soa como uma cena-chave do roteiro oculto da sociedade.
Ao piano, Muti mostra o instrumento que lhe acompanhou desde 1968, comprado na loja Ceccherini em Florença, quando chegou ao Maggio Musicale. Era, diz ele, um pequeno meio-cauda que, ao contrário dos Steinway exibidos nas vitrines, cabia em seu orçamento. “Hoje que poderia ter um Steinway, não o traio”, confessa o maestro, como quem preserva a textura de uma memória sonora que moldou sua vida artística.
Com um repertório que inclui múltiplas leituras de Macbeth — desde a estreia em 1974, em Florença, com a regia di Enriquez, passando por Nápoles, La Scala, Roma, Chicago e apresentações no Japão — Riccardo Muti afirma que este título tem um lugar singular no cânone verdiano. “É um unicum, antecipa um certo expressionismo”, diz, revelando que está redesenhando sua abordagem como se jamais o tivesse dirigido antes. Na maturidade, confessa, redescobre detalhes que antes lhe escapavam: a ópera, para ele, continua sendo um espelho do nosso tempo e um território a ser reinvenção dramática sem perda de diálogo com a música.
Sobre a cena contemporânea, o maestro não poupa críticas: recorda a experiência em Salzburg em 2011 com a regia de Peter Stein — “lo Strehler tedesco” — e a decisão posterior de limitar sua participação ali aos concertos de meados de agosto, herança dos ciclos de Karajan. A razão é direta: sofreu com diretores caprichosos que, segundo ele, insultavam a música em vez de servi-la. “Quando o que se vê perturba o que se ouve, quer dizer que o que se vê está errado”, cita Schoenberg, deslocando a discussão para a relação vertical entre nota e palavra em Verdi.
Muti não é avesso a propostas modernas: lista com apreço colaborações com Vitez, Carsen, Vick e as nove produções com Ronconi. O julgamento crítico do maestro, porém, é contundente: a encenação moderna só o convence quando se coloca a serviço do som, evitando que a cena se torne um museu de cera. Ele lamenta também que os surtítulos tenham empobrecido a capacidade do público de ouvir com atenção e critica cantores que, em concertos, se posicionam atrás do regente, como se o símbolo do espetáculo fosse mais importante que a narrativa musical.
Sobre a filha, Chiara, Muti fala com uma mistura de orgulho e rigor crítico: “É moderna, cresceu lendo música, conheceu Strehler, foi atriz, tem uma cultura extraordinária. Não o digo porque é minha filha”. Às vezes discutem, sobretudo nos detalhes — mas, ressalta, essas diferenças nunca trariam uma ofensa à música que pudesse incomodar o público. A colaboração pai-filha promete, assim, uma encenação que é ao mesmo tempo um reframe da memória familiar e um diálogo honesto com o texto musical.
Esta produção de Macbeth em Turim é, portanto, menos um espetáculo de estreias e mais um cenário de transformação: o encontro entre tradição e reinvenção, entre o velho piano de Ceccherini e as demandas contemporâneas do palco. Para Muti, a ópera continua sendo um roteiro vivo, um campo onde a história e o presente se refletem — e onde cada nota pode recontar, com absoluta precisão, o destino dos personagens e o eco cultural que os acompanha.






















