Por Chiara Lombardi — Entre o espetáculo e o sacro, Sabrina Impacciatore descreve a sua participação na cerimônia de abertura das Olimpíadas como uma experiência à beira do ritual. Em resposta concedida enquanto trocava de voo no aeroporto, a atriz não escondeu o cansaço: “Não sei nem onde estou, estou em pé por milagre”, confessou. Dormiu cerca de uma hora e dez minutos nas últimas 24 horas e retorna aos Estados Unidos ainda com as tranças de ouro e prata no cabelo — não conseguiu tirar o adereço após a apresentação.
A performance, que conquistou o público e a crítica, foi para ela “como estar em trance”. O número chegou a atrasar por causa do tempo maior da parada, e a artista passou o período nos bastidores em intensa agitação: aqueceu com antecedência, teve medo de se lesionar e, na hora de entrar em cena, sentiu-se invadida por preces dirigidas “a várias entidades”, procurando consolo em uma espécie de liturgia pessoal antes de pisar no palco.
O que se viu na arena não foi apenas atuação: Sabrina Impacciatore correu, dançou e duelou com os próprios limites. Uma complicação recente complicava ainda mais a equação: na semana anterior, sofreu um acidente de gravação. Deveria insultar um árbitro como parte de uma cena, mas, impulsionada por um instinto quase animal, acabou invadindo o campo e jogando futebol de salto alto por meia hora. O resultado foi uma queda — e uma lesão nas costas. “Cheguei a Milão e não conseguia nem ficar em pé”, relatou, lembrando as noites sem dormir e a ansiedade que antecedeu o espetáculo.
Vencer esse desafio físico, segundo ela, foi tão simbólico quanto técnico. “A imagem de todas aquelas pessoas era potentíssima, o coração batia tão forte que pensei que iria saltar do peito”, disse. Entre os rituais finais, misturava movimentos de aquecimento, preces, aplicação obsessiva de protetor labial e agachamentos — gestos que compuseram um pequeno roteiro íntimo para domar o nervosismo. A sensação, descreve, tem o contorno da solidão absoluta: o artista frente ao medo de cair, falhar ou decepcionar, contando apenas consigo mesmo.
O momento de emoção veio quando sentiu o calor dos 26 bailarinos que dividiram a cena com ela — jovens com quem criou um vínculo intenso durante os ensaios. Nesse calor humano encontrou a confirmação de que a travessia valera a pena. E, como numa cena bem construída de cinema, a figura da sua mãe funcionou como uma estrela polar, um centro de referência que a guiou durante o turbilhão.
Na leitura cultural, a passagem de Sabrina Impacciatore pelo evento olímpico funciona como um pequeno espelho do tempo: uma atriz confrontando a performatividade exigida pela grande cena pública, o corpo como roteiro e o ritual individual que antecede qualquer exibição coletiva. Não é apenas o brilho das tranças ou a coreografia: é a narrativa de uma profissional que, entre cansaço, dor e preces, transformou o medo em gesto público — um reframing da vulnerabilidade em força.
Ao final, Impacciatore segue viagem, mas carrega a marca daquela noite como quem traz um papel central: ainda ofegante, emocionada, e consciente de ter atravessado um momento que será lembrado tanto pelo que se mostrou quanto pelo que permaneceu oculto, nos bastidores da cena.





















