Por Chiara Lombardi — Em 8 de fevereiro de 1976 chegava às salas americanas um filme que desde então se instalou como um verdadeiro eco cultural: Taxi Driver. Dirigido por Martin Scorsese e escrito por Paul Schrader, o longa trouxe à tela uma paisagem noturna de Nova York que funcionou como um espelho do nosso tempo — uma cidade em frangalhos, um indivíduo em colisão com a própria sanidade.
No centro dessa fábula urbana está o personagem interpretado por Robert De Niro, o taxista e veterano do Vietnã Travis Bickle. Bickle é, simultaneamente, protagonista e lente de distorção: através de seus olhos, o roteiro oculto da sociedade se revela em flashes de violência, desejo de purificação e isolamento. Ao lado de De Niro, destaca-se a atuação da jovem Jodie Foster, memorável como Iris, a prostituta que encarna a perda de inocência e o pacto sombrio entre proteção e exploração. No elenco, ainda, o vigor de Harvey Keitel como Sport, figura ambígua que dirige e manipula o mercado humano que cerca Iris.
Entre as curiosidades que cercam a obra, há uma que mistura improviso e destino: Martin Scorsese aparece em um pequeno cameo como o marido neurótico que observa a esposa através do táxi de Travis. A cena teve destino curioso: o ator escalado para o papel sofreu um acidente e precisou desistir às vésperas das filmagens. Scorsese, aconselhado por De Niro, simplesmente vestiu-se para a cena e assumiu a personagem — um gesto que transforma o diretor em reflexo literal e metafórico do universo que estava representando.
O roteiro de Paul Schrader e a direção de Martin Scorsese não só esculpiram uma narrativa sobre alienação, vigilância e violência iminente, mas criaram um reframe da realidade urbana dos anos 1970 que ainda reverbera. Há um eco dessas escolhas estéticas no modo como o filme constrói suas cenas scabrose e nas decisões de direção que privilegiam o claustro do carro como palco para um país à deriva.
Na passagem destes 50 anos, Taxi Driver continua relevante não apenas como obra cinematográfica, mas como documento social. Seu impacto estende-se da linguagem do cinema à memória coletiva: certos enquadramentos e falas — e, sim, aquele olhar de De Niro diante do espelho — entraram no imaginário visual global. O filme nos convida a interrogar por que certas imagens persistem e como o entretenimento atua como cartografia de crises mais profundas.
Revisitar Taxi Driver é, portanto, revisitar um ponto de inflexão cultural. É lembrar que o entretenimento raramente é apenas entretenimento: é um mapa que registra inquietações, medos e fantasias de purificação. Na data em que completamos meio século do seu lançamento — 8 de fevereiro de 1976 — vale observar o legado e as minúcias de produção que transformaram uma história sobre um taxista solitário em um ícone do cinema mundial.
Chiara Lombardi assina esta análise como observadora do zeitgeist: o cinema como espelho e o espelho que insiste em nos devolver perguntas.






















